18 de novembro de 2009

fragmento de carta

Começar a escrever é ato inusitado, impreciso. Tateio o papel como um cego, seguro a caneta como uma criança; não sei bem como começar a traçar a folha, mas sei que depois do primeiro empurrão deslizarei até o pé da página, como se fosse uma ladeira. Escrever sempre acaba sendo uma atividade extática (em êxtase), como sonhar ou se embriagar: em certo momento perde-se o controle e algo te leva pelas mãos - neste caso literalmente - até que se recobre a consciência e torne-se estático (em estadia) novamente. Nesse sentido, seu escrever apolíneo e definidor de quem você é talvez contraste e se articule bem com o meu, dionisíaco, e destruidor de quem eu sou. Escrever é algo trágico, afinal.
Li novamente sua última carta e me espantei com o quanto ela é permeada pela questão do tempo. Quando você diz que já não mais se sente como antes, não mais encontra uma continuidade entre a sua imagem solidificada e o que agora se delineia em você, confirma a sua obsessão no escrever - definir-se -, mas também a minha - vencer o tempo. Sei que você pensa que nunca vou conseguir, mas pensar em "nunca" já é pensar dentro da lógica do tempo, e não me faz sentido. Mais interessante é poder ver como a escrita, e mais especialmente a carta, exerce um papel nas duas procuras.
Recebi em casa, há pouco, uma carta que havia postado em março, mas que nunca chegou ao destino. Vagou por seis meses como uma mensagem numa garrafa, sabe-se lá por que mares, como uma capsula contendo minha subjetividade. Alguém poderia ter aberto e lido sentimentos, sensações, verdades e mentiras. Se sentiria contemplado ou emocionado, e talvez me buscasse pra retornar-me, com uma ponta de curiosidade: quem seria o náufrago que escreveu a mensagem? Mas, menos romanticamente, chegou pelo correio. Ao abrir, entretanto, arrebatou-me aquela sensação: foi como experimentar em mim meu passado, como voltar no tempo. Uma memória involuntária (aquela de Proust) fez com que meu passado não só viesse à mente mas, naquele momento, fosse real. Olhei o envelope, e a marca vermelha do carimbo não poderia expressar melhor tudo o que sinto e penso agora: "Mudou-se".
Receber esse envelope, assim como observar a sua carta - escrita em duas partes separadas por dois meses -, leva-me a olhar, agora, o mundo com um olhar mais heraclítico, a perceber melhor que de fato tudo está em constante movimento, como você disse, um acontecimento, um "estar sendo". Mas ao mesmo tempo me mostra que tudo permanece, tudo retorna: o tempo não é mais um devorador, não faz mais sentido que o passado seja perdido e futuro seja potência, linearmente, pois não existem mais essas coisas separadamente. Experimentei o passado no presente, através da escrita. Se podemos guardar o tempo em cápsulas e assim sair da linha, então o tempo como conhecemos precisa de manutenção.
Percebo agora que não "estamos sendo", não "fomos" nem "seremos". Precisaremos de um novo tempo verbal pra dizer as três coisas ao mesmo tempo, pois só assim fará sentido. Conseguir dizer isso é papel da linguagem, e acredito que principalmente da literariedade; sendo assim, continue a tentar definir-se na escrita, [NOME], parece um bom caminho.

(...)

19 de outubro de 2009

Identidade

Perdera tudo em menos de seis meses: os últimos vestígios dos pais, o emprego massante e maquinal, todo o dinheiro mais barato que tinha, as amizades mais caras, o relacionamento mais ou menos amoroso que acabara construindo, quaisquer motivações pra estudar, trabalhar ou praticar as atividades que mais gostava há alguns meses.
Ainda assim, concordou em ir àquela festa aquele dia. Os poucos amigos que lhe restavam insistiram pra que fosse, que ia se divertir, ia esquecer os problemas, rir, que podia arrumar um par, que sair de casa faz bem, que ...
Na porta do estabelecimento, o engravatado musculoso estende a mão e diz a palavra que no momento lhe é possivelmente a mais inusitada: 'identidade'.
As mãos vasculham o bolso traseiro, vãs. Não está lá. Não há documento ali. Não há nada ali. Súbito, esquece seu nome. Não fazendo nada, não tendo nada, não conhecendo ninguém mais, só tinha o próprio nome; e agora perdeu, esqueceu em casa. Sua identidade não está ali.
Anda de volta (pra onde? não sabe.), na chuva, sem saber se é homem, mulher, criança, se é a chuva ou se é o cavaleiro inexistente da armadura branca, de Calvino. Quis, andando sem saber pra onde, ser como as pessoas que andam com a identidade no bolso, mas ao apalpar, entende porque não poderia.
Armaduras não têm bolsos.

15 de outubro de 2009

"About the souffle", ou A beaucoup de souffle

Chove, e chuva sempre significa desolação. Sempre hoje. Houve já aquele tempo de brincar na chuva ou lá andar de bicicleta, chegar em casa ensopado e logo ser mandado em direção ao banheiro, em vocíferos.
Agora sou o tempo todo acossado, por tudo e todos. No tempo em que pegava chuva, a palavra 'acossado' me traria alguma sensação que não digo, pois não sei, só ouvi a palavra em adulto, talvez, e já com o signo talhado. Hoje me traz Godard, e mais ainda agora.
Porque meu quarto é o contrário do quarto que o filme mostra por mais de vinte minutos, ali com a intenção de poder filmar o íntimo, que falta(va) ao cinema, o desejo de um cinema-verdade; aqui, sem intenção: não há privança, intimidade no meu quarto, nada interior, secreto, pessoal. Não há nada aqui senão a ausência da chuva. Por muito mais de vinte minutos (ou muito menos, não se saberia), minha câmera mostraria um quarto fora do tempo, um retrato da eternidade e do nunca ter sido. Se alguém pudesse pintar um quadro meu agora, pintaria o próprio tempo.
Em vez de falar de chuva falei do filme e falei do quarto, mas sem se enganar, mais, a chuva envolve (e acossa) tudo isso. O filme, o adulto, o quarto, a desolação, tudo aqui é só não-chuva. Só quem ficou do lado de fora do quarto - que é o lugar da chuva, chuvas não entram em quartos, nem quando estão a perseguir alguém - foi a criança. Só quem não é acossado, e nem Acossado, é o garoto molhado que não sabe o que significa essa palavra e nem quem é Godard e nem quem é Truffaut.
Tenho vontade de abrir a porta e tomar um banho de chuva, mas o barulho parou, e eu tenho medo de já ter estiado. Ou pior, de não chover nunca mais.

1 de outubro de 2009

Se você, por entre as linhas

Foi até a banca de jornais e calmamente escolheu aquele volume cujo título mais interessava. Pensava, se o título é interessante, o escritor é bom. Colheu como fosse um pomo frágil, levou-o ao nariz e cheirou. Pagou. Andou até um banco próximo e abriu na primeira página, curioso, e qual foi sua surpresa ao ver ali, impressos, em tipos absorvidos pelo papel certamente antes de tê-lo tocado com as mãos e cheirado, todas as suas últimas ações, desde ir até a banca até surpreender-se. Parou de ler.
Agora está mirando algum lugar fora do papel, confuso, pensando e concluindo que acaba de presenciar uma absurda coincidência. Olha de volta para o livro e continua lendo, na expectativa desesperada de ler outra coisa senão a si mesmo, mas é inútil. O livro é sobre ele. Respira fundo, mas bruscamente expira exasperado, pois inspirou ao mesmo tempo em que leu a descrição deste mesmo ato. Testa; levanta o braço esquerdo. É, na verdade, incrível! Tudo o que está escrito corresponde exatamente ao que acontece na realidade.
Fecha o livro.
Abre-o só em casa, tendo pensado no caminho nas experiências que poderia fazer com um livro tão inusitado. Só de voltar a ler, leva um susto. Sempre que continua de onde parou, o que está escrito é exatamente o que está acontecendo no momento. Pensa por alguns instantes em como tapear o livro mágico. Folheia: está todo preenchido. Pensar nisso lhe dá calafrios, pois isso quer dizer que tudo o que irá lhe acontecer está já fixo, rígido, talhado em signos pretos que se estendem por – pensa ele – não muitas páginas. Será que, acabando o livro, morre o leitor?
Abre numa página aleatória e passa os olhos na seguinte sentença: “pulou da página dois para esta, e leu esta frase”. Fica com muito medo e volta para onde parara. Pensa em ler o que está escrito nas últimas linhas do livro pra saber seu fim, mas se não há nada depois do que leria, e se o que ele ler, invariável e inevitavelmente, acontecerá... bem, ele prefere não ler.
Estando literalmente com a vida nas mãos, ele continua lendo, quando tem uma idéia. Diz em voz alta que vai dar um salto, mas não cumpre. Pega uma caneta na escrivaninha e, com ela, risca as palavras 'mas' e 'não'; se pensa, satisfeito, vitorioso, ao concluir que o livro, afinal, predisse errado. Depois continua a leitura e vê que foi inútil; a descrição do ato segue. Se sente um pouco estúpido por ter tentado algo tão bobo.
Percebe que o primeiro capítulo do livro está quase no fim, e conjetura o que acontecerá quando um capítulo acabar. Sente um pouco de receio, mas continua lendo. Lendo tudo o que lhe acontece, o que faz, o que pensa, todas essas emoções, lendo tudo o que já sabe, agora já não tão surpreso por descrever o livro sua vida, mas sim com desolação. É como se sua vida escorresse pelos dedos; a cada letra que apreende fica mais perto do fim do livro e da sua vida. Nunca antes havia reparado em quão fugidio é o tempo, a existência, o ser.
Faltando poucas linhas para o fim do capítulo, decide. Fecha o livro e corre para o jardim. Enterra-o, vendo sumir sob a terra o título Se Você, Por Entre As Linhas. As três últimas frases do primeiro capítulo ele nunca chegará a ler.

14 de setembro de 2009

Conto da Ilha Desconhecida II

Último domingo passado visitei, como programa familiar – pois algo semelhante não acontecia há mais tempo do que o suficiente pra que minha mãe se deprimisse –, a ilha de Paquetá, no espaço marítimo do Rio. Entre o objetivo de passar um dia com minha mãe e irmãos, pretendia fazer algum exercício físico (pois me disseram que andava abatido pela falta disto) e abraçar um baobá que há na ilha. Pois diz a lenda que você abraça um baobá e pode esquecer qualquer coisa que quiser. Diz outra que o que você faz ao baobá volta pra você sete vezes (ou durante sete anos, não lembro bem), mas estive mais interessado na primeira.
Foi um passeio de fato muito agradável, conheci pessoas ótimas, fiz meu exercício físico, e em dado momento, quando me vi sozinho por quaisquer motivos, fui a um mirante que há na ilha. Subi por escadas serpenteantes, num labirinto de pedras que não parecia fazer sentido algum, dado que todos os caminhos acabavam confluindo, e lá na frente, lá em cima, uma construção que parecia ter algum objetivo, mas que não soube adivinhar qual. Era uma construção octogonal, como um coreto, com primeiro e segundo andares, o de cima funcionando como uma varanda, de onde pude ver o mar até um ponto muito longínqüo.
Ilhas me atraem por algum motivo. Lá do mirante lembrei minhas fantasias infantis, de como eu, em vez de astronauta ou jogador de futebol, sempre quis ser um pirata. Navegar pelo oceano, ancorar próximo a ilhas desertas, descobrir tesouros, enfrentar os perigos e a solidão enorme do mar. Lembrei de como adorava histórias como Viagens de Gulliver, Robinson Crusoé, A Ilha do Tesouro (do Stevenson), Peter Pan, e como hoje, quando leio livros como A Invenção de Morel, me encanto. Ilhas me atraem muito. Lembrei então do conto do Saramago e (na minha atual tendência para mudar de humor bruscamente), fiquei consternado, pois lembrei, triste, que já não há mais ilhas desconhecidas. Não há mais tesouros enterrados. Tudo já foi visto, documentado e estudado. Me provaram de algum jeito que Lilipute e a ilha dos meninos perdidos não existe no planeta Terra, e por mais vontade ou equipamentos de navegação que eu possua, nunca vou alcançá-las ou alcançar qualquer lugar em que nunca tenha pisado alguém.
No meio de tudo isto pude ver, lá embaixo, na água, um barco. Não é a coisa mais incomum, pensarão ao ler isto, um barco a boiar. A água da Baía não é limpa, mas é passível de navegação, e não raro é ver barcos por ali. Mas com calma eu explicarei que não era uma lancha ou um barco a motor. Era um barco veleiro, aparentemente muito antigo, cujo nome não pude ver na proa, mas que era pintado em letras bonitas, vermelhas e maiúsculas. As velas estavam afrouxadas e o casco saboreava as ondulações como se aproveitasse, como se sorrisse. Não sei por quais diabos resolvi ver mais de perto o barco. Talvez para saber seu nome. Desci as escadas serpenteantes, que agora me pareciam mais lógicas, e cheguei até o lugar de onde veria melhor o barco. Para minha surpresa, havia um pequeno pier de madeira que se estendia uns dez metros sobre o espelho d'água, e um pequeno bote de madeira amarrado numa das pontas. Alguém viera daquele veleiro neste bote e estava na ilha agora.
Virei as costas, para voltar ao lugar onde estavam as pessoas com as quais vim para a ilha, mas tudo o que eu fora outrora, num ímpeto, voltou a mim. O pirata, o náufrago, o aventureiro, o explorador, desbravador, aquele que descobriria uma ilha nunca antes pisada por homem algum; eu cresci e deixei pra trás a melhor criança que já existiu. Eu sou um menino perdido que deixou a Terra do Nunca! No momento em que tudo isso me assolou, virei de volta para o bote, mãos na cintura e pernas entreabertas, e pensei que não podia, mesmo, deixar nada daquilo se esmaecer e se perder no tempo. Saltei pra dentro do bote, desamarrei a corda que o prendia ao pier, remei até o veleiro e subi as escadas, o coração batendo como um tamborim.
O barco me recebeu como se eu fosse seu capitão, e eu por um momento pensei que, se eu soubesse navegar e se tivesse comigo, ali, uma tripulação, poderia muito bem içar as velas e sair pelo oceano em busca de uma ilha. Há de existir uma ilha deserta, uma ilha inexplorada, algo que tenha passado despercebido aos radares, satélites e telescópios. Há de existir um lugar mágico que engane os que vejam de fora, ou que seja invisível aos pragmáticos, aos céticos, aos de pouca imaginação. Não! Ela existe! A minha ilha desconhecida existe, e cartógrafo nenhum vai me dissuadir!
Estava a boreste, então corri ao convés, e quando olhei, minha tripulação estava pronta! Lemuel Gulliver no mastro, Robinson Crusoé na escota e no burro, Jim Dawkins com os cabos, o fugitivo da ilha de Morel na bolina e ele, o próprio Peter Pan, como o meu navegador. Eu, como timoneiro, manejei o leme, e como capitão, ordenei a Gulliver que esticasse a vela. A esteira, no ângulo com a testa, logo rangeu um pouco. Somente com o rosto, percebi o barlavento. A retranca não tinha um grande ângulo de abertura; cacei a escota até a vela esticar. Orçei sutilmente e a vela começou a panejar. Ordenei à tripulação que se dispusesse de modo que o barco bandasse um tanto para sotavento. Mandei que Crusoé e Dawkins prestassem atenção extra ao burro e aos cabos da testa e da esteira, pois afastávamo-nos de Paquetá e o vento ficava mais forte. Girei à arriba até o vento estar de través. Eu não fazia ideia de como sabia isso tudo ou quando havia aprendido a velejar, mas eu sabia! Era capitão de um navio! Eu navegava rumo a encontrar minha própria ilha desconhecida!
Seria uma ilha não muito grande, verde; um verde mais verde que qualquer outro visto antes – pois seria um verde que só existiria nesta ilha. Haveria cachoeiras e cavernas escondidas atrás delas, e animais nunca antes estudados. Algum náufrago, quem sabe, já haveria de ter morado ali algum dia, e talvez houvesse escrito algo e escondido pela ilha. Quem sabe houvesse algum tipo de magia, feitiçaria, ser sobrenatural, algo digno de uma lenda, de uma ilha que por algum motivo ninguém descobriu antes de mim. Minha ilha seria fantástica, cheia de mistério, cheia de beleza.
Minha ilha seria cada coisa e pessoa que eu tento encontrar e descobrir no mar em que navego, mas que me dizem já ter sido conhecida. Minha ilha desconhecida seria como cada segundo que vem, e que me é completamente imprevisível, inusitado e de certa forma, incrível. Minha ilha seria como eu, que não conheço e que nunca saberei se já conheci. E quando eu lá chegasse, da praia, lembraria de olhar para o barco (ainda não descobri seu nome!), e ai sim entenderia: como o barco do conto de Saramago, o meu também navega em busca de si; na madeira gasta da proa, em letras vermelhas, lerá-se, agora sem dúvidas, a solitária palavra pela qual me chamam: o barco tem o mesmo nome que eu.

8 de setembro de 2009

desolação

Ele colecionava ampulhetas, mas hoje, em sua ânsia de destruir o tempo, reduziu sua coleção a pedaços de vidro e areia espalhada.

15 de agosto de 2009

Pista de esqui (circuito para principiantes)

Nunca antes havia lhe acontecido de sentar-se ao computador e não surgir nada sobre o que escrever. Era-lhe na verdade muito simples esta atividade: bastava juntar algumas impressões adquiridas durante o dia, imagens reunidas pelos (já não tão) vigilantes sentidos, agrupá-las numa ordem interessante, elaborar um roteiro que tornasse a coisa inteligível e modificar um pouco os fatos, exagerando levemente em alguns pontos para que ficasse interessante ao leitor, mesmo que desatento ou desinteressado. Não estava nem ai para os que lhe diziam que literatura não tem uma (ou mais de uma) fórmula; a sua tinha, e ganhara milhões assim. Se não escrevia bem ou se o que escrevia não merecia ser considerado literatura não era seu problema.
O fato é que só ganharia dinheiro se escrevesse, e no momento não conseguia arrancar nem uma linha do espaço branco à frente do rosto. Deu um gole no café. Nada. Ouvira já outros reclamando sobre esse momento, sobre sentar-se para escrever e não ver as palavras brotando, não sentir que as mãos começam a escrever sozinhas, não ser levado pela escrita a ponto de nem lembrar depois de ter escrito aquilo. Pra ele sempre fora assim e aparentemente sempre haveria de ser. Escrever era como esquiar: um pequeno impulso e a brancura lisa da neve (ou do papel) encarregava-se de levá-lo até o pé dá montanha que era a página, sem precisar grandes esforços, a não ser para girar uma curva aqui ou ali.
Levantou-se, foi ao bar, despejou um gole de conhaque no café. Bebeu. Bebeu mais. Nada. O branco da tela do computador era o branco mais pálido que já vira. Começava já a desesperar-se, a barriga a sentir cócegas de ansiedade. Sentou-se com a cabeça entre as mãos, já pensando em como seria sua vida sem escrever. Poderia viver com o que já tinha, sim, mas sempre sentira-se tão bem escrevendo...
Conformou-se. Nunca mais escreveria, não era tão mal assim. Na verdade, era mesmo hora de se aposentar! Sorriu satisfeito e levantou-se, deixando o computador para trás.
Súbito, parou, girou nos calcanhares e sentou-se de novo. Usando todas as suas técnicas, toda a sua fórmula, toda a sua imposturice, lançou os dedos às teclas do teclado e de uma vez só escreveu um texto curto, sobre a sensação de não saber o que escrever.

11 de agosto de 2009

Silêncio(s).

Lá estava eu, sonolento, acompanhando ao rito massante, desgastante, a que a igreja católica faz seus fiéis passarem para qualquer que seja o fim. Meu tio foi o último dos cinco irmãos a se casar, mas logo que o fez já tratou de perpetuar seus genes. Agora, um ano depois, fomos a família toda acompanhar o batizado do guri, que é de fato uma graça.
Meu avô gostaria de estar lá, acho, mas ele morreu há alguns anos. Rui, o Cão. Era um homem no mínimo sacana, bronco, bufava, fazia piada com tudo e todos, mas ao mesmo tempo era completamente sensível. Meu tio saiu à imagem. Eu e meu irmão sofremos nas mãos dele, e até hoje sofremos um pouco. Que o filho dele nos aguarde!
O bonito nessa parte da história é que o garoto estava sendo batizado, e até o nascimento ninguém sabia o nome; meu tio disse que "veria de quê o bebê teria cara". Surpresa emocionada de todos foi chegar na porta do quarto e ler o nome do bebê inscrito: Rui.

Bem, eu estava lá na igreja, sonolento, pensando essas coisas todas, mas mal sabia onde estaria no outro dia. Lugar que não visitei por muito tempo, por não agradar aos sentidos nem à razão. A necrópole de túmulos e placas e jazigos que é o cemitério de Petrópolis chega a ser maior que algum bairro, aposto. Meio sem jeito (pois não sei qual a postura adequada a estes lugares) encontrei o caminho por entre todo aquele mármore e cheguei ao sepulcro que procurava.
Meu pai sempre contou que meu avô, que eu não conheci, era a pessoa mais boazinha do mundo. Ele era carpinteiro e fazia brinquedos pros meus tios. Nunca levantou as mãos pra bater num filho, exceto por uma vez, mas passou a noite numa cadeira chorando. Histórias de papai. O fato é que, na verdade, meu pai sim era a pessoa mais boazinha que eu conheci. Tinha uma barba e um físico ameaçadores, uma mão maior ainda, mas um nariz de batata, olhos e sorriso bobos, de quem não faria mal a ninguém. E eu, fora o porte físico (que ficou de herança pro meu irmão, acho), sai à imagem.

O cemitério, deserto, proporcionava um silêncio que não lembro ter ouvido antes, embora agora julgue sim tê-lo experimentado em dado momento. Sentado no jazigo do meu pai e avô, os sons todos desapareceram do mundo, e os movimentos também (até porque tumbas de pedra não se movem sozinhas). Tudo estagnou e o tempo parou de andar - ou correr. Só há tempo quando relativo à vida, pensei. Sensação semelhante à de dois dias antes, no momento em que o padre jogou a água na cabeça do menino. A igreja silenciou, as respirações cessaram, o mundo inteiro parou por um segundo, até o barulho da água soar. Aquele silêncio foi exatamente o mesmo do silêncio do cemitério, quando o tempo parou. Nos dois momentos, no calor da vida nova do pequeno Rui e na frieza da velha morte do meu grande pai, todo o mais deixou de soar, para ouví-los, talvez.

Acho que essa é uma das razões para minha vontade absurda de ter um(a) filho(a): enganar o Tempo. Reproduzir num futuro o que já foi passado, ainda que eu nem saiba que foi, e anular completamente a noção de presente. Um novo Rui bufando e mexendo com os netos, um vovô Zezinho revivido pelo neto que não conheceu, meu pai em mim, eu em meu pai, e os dois em meu filho - que também não vai conhecer o avô, mas que vai ouvir histórias incríveis sobre ele. E quem sabe, dessa vez, modificando um pouquinho o ciclo, a história possa ser diferente, e meu filho possa dizer, em tempo, o quanto ama seu pai.

Do passado ou do futuro pouco sei e pouco saberemos, mas nessa minha eterna (faz sentido?) batalha com o Tempo, descobri ao menos que a vida é só um ir ou vir, tanto faz o sentido. O silêncio do nascer é o mesmo do morrer, e nestes dois momentos o tempo sucumbe. O meio não interessa agora, tenho a vida pra tentar entendê-lo. Mas o silêncio dos seus extremos me fez perceber isto, que considero agora indispensável:

Nascer e morrer são, essencialmente, a mesma coisa.




Feliz dia dos pais; eu te amo.

29 de julho de 2009

texto da gaveta (sem título)

Trabalhava mecânica e ininterruptamente, como sempre. Os dedos digitando compunham uma melodia que se espalhava em trajetória angular, a se juntar a outras, formando uma enorme sinfonia. Os barulhos das teclas eram as percussões enquanto os suspiros e resmungos, os sopros, e uma marchinha murmurada nasalmente por alguém distraido fazia o papel das cordas.
Imaginou sua fuga. Levantaria bruscamente, interrompendo a sinfonia - pois uma orquestra não pode continuar a tocar se um dos percussionistas levanta-se abruptamente de sua cadeira e pára de tocar -, correria por entre as mesas e divisórias, sem pensar, derrubando o que estivesse no caminho. Desceria correndo pelas escadas, ligaria o carro, avançaria o sinal vermelho, deixaria o carro no meio da rua, subiria as escadas, agarraria seu par e os filhos e entraria depressa no carro, debaixo de palavrões e buzinas agressivas.
Tocaria pelas ruas, veredas, estradas e campos, sem parar, até chegar a algum lugar deserto, longe de qualquer resquício de civilização. Destruiria o carro, talvez o queimasse, e desfaria-se de suas roupas e relógios, e notas de dinheiro. Beberiam água de rio, fariam uma casa de madeira e palha, lavrariam a terra e caçariam para se alimentar. Os filhos não aprenderiam mais matemática ou inglês, mas sim lições de sobrevivência. Nada mais de vacinas, nada mais de aspirinas. Que seriam úteis, pois novos bebês nasceriam, visto que não haveriam anticoncepcionais.
As crianças tornariam-se adolescentes; os bebês, crianças. Haveriam novos bebês. Como é de se esperar no ciclo de vida natural dos seres humanos, a sexualidade haveria de aflorar, e seria entre os irmãos ou com os pais. Com o tempo, a linguagem se restringiria a poucas palavras, e não haveria mais escrita. Em épocas difíceis o egoismo e a inveja gerariam conflitos, e algum espertinho aprenderia a lascar uma pedra. A matança, o incesto e a barbárie iriam predominar, e tudo terminaria numa grande fogueira acesa em louvor de uma nova divindade imperativa e cruel.
Piscou. A tabela, exposta no monitor e refletida nos óculos, os números, números e mais números justamente onde estavam antes. A mão tinha parado de digitar por um instante, desequilibrando a sinfonia. Relaxou os músculos das pernas e ajeitou os óculos, como se se desculpasse para com a orquestra, e a mão, trêmula, encontrou seu tempo de volta na música.

22 de julho de 2009

texto da gaveta (Morte da filosofia)

Definho.
De fino jantar à mesa posto,
recuso-o. Banqueteio Cagliostro.
Desgosto..
Desse gosto que não esqueço,
desse gosto ou desse o avesso;
Apareço?
A preço baixíssimo ponho
o apreço por qualquer sonho.
Expõe-o!
Espanta que esse um espinho
fira-me tanto, sozinho!
Definho...

15 de julho de 2009

texto da gaveta (sem título)

Formara-se recentemente, com sofreguidão. Sonhava com o magistério, mas não tinha paciência para tanta teoria. Passara, enfim, e agora, como as coisas teimam em ser, era hora de se arrumar financeiramente. Arrumou uma vaga de professor numa escolinha municipal, ganhando uma merreca, mas sabendo que é um passo de cada vez. Foi mandado para alguma instituição burocrática do governo para regularizar algo, ou fazer pedido de qualquer coisa.
"Nome?", o atendente brusco, sem tirar os olhos do formulário que preenchia. "Francisco de Oliveira", a resposta veio numa tentativa de simpatia, como um tratado de paz. A resposta à proposta de tratado foi um tiro de canhão: "Ocupação?"; "Muita!". O atendente murmurou um riso, daquele tipo que deixa o piadista sem graça. Não levantou os olhos do papel. "Sério, senhor, tem gente esperando. O que o senhor faz?". A pergunta foi bem abrangente, e, olhando pra trás, não havia ninguém esperando. "Eu dou aulas, escrevo, faço alguns trabalhos de digitação e sou músico também."
O atendente levantou os olhos e suspirou. "Tenho que botar a atividade principal. O senhor é professor?"; "Sim.", resignou-se o cansado apaziguador. "De quê o senhor dá aula?"; "Filosofia."; "Eu imaginei. Tenho um primo que faz filosofia. Ele também complica tudo, e também usa barba e cabelo comprido.".
Francisco de Oliveira terminou de fazer o que tinha ido fazer, sério, e saiu pela porta resmungando. "'Eu imaginei'... Olha só que absurdo. Funcionário público incompetente." Saiu pela rua, indignado, como qualquer filósofo se sentiria ao se descobrir tão óbvio, e foi cortar o cabelo.

7 de julho de 2009

Akasha

Resignado, acatei e resolvi arrumá-lo, mesmo que superficialmente. Meu quarto não funciona, no melhor eufemismo. Não durmo na cama: ela está coberta por roupas dobradas. Livros ocupam a superfície superior de todos os poucos móveis espalhados pelo espaço pequeno. Há uns chapéus engraçados e poucas coisas sem função alguma pelo chão. Comecei olhando dentro das gavetas de uma cômoda que nem deveria estar ali, mas que “sobrou” e veio parar no meu quarto mesmo. A gaveta superior comporta as coisas mais recentes, as últimas coisas que precisei guardar em algum lugar. Sendo assim, não apresenta novidade. A segunda de cima pra baixo contém as folhas infinitas de blocos, fichários, cadernos que outrora usava pra escrever na escola e na faculdade. Hoje não tenho paciência para isso, então aprendi a ouvir, tornando o papel, nestes momentos, útil somente para distração. A gaveta mais próxima do chão é minha favorita. Nela guardo recordações. Os bilhetes de cinema, os canhotos de passagem das viagens, umas fotos, tampinhas que me lembram uma garota, um bilhete escrito por um amigo, minhas cartas. Há nesta gaveta coisas que não faço idéia de que eram na época em que guardei. Uma chave, uma bolinha de gude, uma folha de alguma planta que é, olhada por mim, um magnífico fractal, uma gaivota de papel.
O degradê temporal das minhas gavetas é perfeito, começando no agora (ou recente), passando pelos últimos anos de estudo e culminando nas lembranças mais profundas. Mas acontece que a cômoda na verdade tem quatro gavetas. Uma terceira, entre a dos fichários e a das lembranças, se mostra diante de mim como se nunca a tivesse visto. Não chama mesmo a atenção: se tivesse que abrir alguma delas sem saber o que há dentro, com certeza não seria esta. Ao abrir, levo um choque. Entre outras coisas, que guardei e não lembrava, uns discos, um jornal, meus olhos param numa pasta transparente, com folhas brancas e de caderno. Abro e leio. Ali estão textos antigos, meus, mas que nem lembrava de ter escrito! Bons ou ruins, não importa. A gaveta funciona como uma máquina do tempo – ou, se a analogia fica melhor, uma cápsula do tempo –, pois guardou durante tanto tempo meu passado, pra me entregar agora. Tenho, por um momento, uma impressão sensível do passado, antes de minha razão tomar conta da cena e das sensações. Por um singular momento, tenho uma afecção pura, limpa de razão, do que é o tempo, em sua essência!
A terceira gaveta é a caixa de Pandora, é a Madeleine, é Akasha; me transforma num John Doe, que sabe tudo, menos o que se é. Abrir a gaveta me esvaziou, me livrou de tudo o que eu era (e o que eu tinha!), me deixou vazio para que o Tempo pudesse se apropriar do meu ser, invadir minha essência, que agora já não era definível, contornável. Ao ler os textos da pasta, pude perceber que não interessa muito mesmo o que estava escrito ali, mas sim a impressão que me causou. O conhecimento universal estava aprisionado naquela gaveta, e ao abri-la, assim como ao abrir aquela de Prometeu, escaparam dali todos os males, ou seja: tudo. E eu fiquei tão embasbacado com a sensação que nem fechei a tempo de guardar a esperança.
Recentemente descobri o que é pintar, segundo Proust: não é pintar o que se vê, pois não se vê nada, efetivamente. Também não é pintar o que não se vê, pois só pode pintar o que se vê. Pintar é, para Proust, pintar que não se vê. Um pintar que escape da razão, pintar a essência, aquilo que “vemos” antes de a razão categorizar e nomear, definindo. Do conhecimento essencial que me abarrotou ao abrir a gaveta não resta quase nada em mim, mas uma coisa permaneceu (e não é a esperança, ufa!): é a certeza de que a minha literatura deve seguir um caminho. Deve ser uma literatura de força, não de forma. Não deve retratar coisa alguma, mas deve dar ao seu leitor a mesma sensação que tive ao abrir a terceira gaveta. Levá-lo, arrastá-lo para outro lugar, deixá-lo tonto, distorcer as concepções, as definições, os contornos, dando sensações puras de tempo, espaço, ser, de mundo. Devo torcer a literatura a ponto de escapar dela, mesmo estando dentro.
Devo, parafraseando, escrever que não se lê.

18 de maio de 2009

Vício

Anda até a janela, sem camisa, sentindo frio. Atrás de si, a cama, mas ninguém sobre ela. Nenhuma mulher de nenhum tipo, e a respeito deles, se fôssemos listá-los aqui todos não haveria espaço. Ele está sozinho no quarto, mergulhado na mais lúgubre penumbra, uma penumbra densa, que sugere a presença de uma tensão no ambiente; uma tensão sexual. Há muito tempo este quarto não comportava apenas uma pessoa. Durante muito tempo, ele (o homem à janela) não esteve sozinho – em todas as noites uma mulher diferente dividia com ele o espaço. Seu analista disse que era uma compulsão. Disse algum nome que significava que o paciente (que já não tinha mais muita paciência pra isso, e por isso nunca mais voltou) era viciado em sexo. E bem, de fato, não era admissível passar uma noite sem uma par.
As mãos a princípio atrapalhadas, sem saber aonde parar, as pernas se tocando, primeiro tímidas entre si e depois certas, explorando-se com vontade. A pele, em sua textura, cor, cheiro, gosto. O conhecer cada linha, cada curva da vastidão pessoal que se escondeu por tanto tempo, e que vai se mostrando pouco a pouco às mãos, agora já mais decisivas e aos olhos, quando estes não se fecham. A respiração dos dois corpos progressivamente se tornando uníssona, ritmada. Os dois corpos enlaçados, como se se atraíssem, como se nada mais pudesse separá-los; o mistério revelado, a exploração, desvelamento do desconhecido, o mapear de cada centímetro de pele do corpo do outro com as mãos, braços, pernas, lábios, dentes; a tensão, a última tensão, do gozo final, firme, tensa... E o enfim relaxar.
E já que vai relaxar, acende um cigarro, por mais clichê que soe, por mais ridículo pareça; ele sempre acende um cigarro ao terminar e o fuma inteiro antes de dizer ou fazer qualquer outra coisa. O brilho da chama em contato com a ponta do cigarro, o calor, todo aquele calor que há pouco estava espalhado nos corpos, agora se concentra na ponta do pequeno bastão. O primeiro trago, observando bem como aquela brasa se encontra submissa ao seu fôlego – assim como a do ato recém-terminado –, invadindo o peito como se fizesse com que os alvéolos acordassem, como se só então percebesse que de fato há pulmões. Libera, então, a fumaça clara; os olhos semicerrados, a cabeça para trás, o corpo, o ar, a mente... E o enfim relaxar.
Está lá agora, sentindo um pouco de frio, a cama vazia atrás, sozinho. Mas não completamente. Vai até a janela, olha o mundo lá fora e pensa em quantas mulheres com as quais nunca esteve estão esperando por ele, em que tipo de mulher poderia estar na cama atrás de si, e em como depois nunca mais a veria. E conclui que tudo isso é estupidez. Leva a mão à boca. Não precisa de mulher alguma, nunca precisou. Acende o fósforo. Ele na verdade não faz questão alguma do sexo. Traga. É viciado em cigarros.

25 de abril de 2009

oч|ədsə

·eu∀ eə əч|nω esə ənb e!qes :ə٨ eə |e!כədsə oueəuƎ ·oч|ədsə ωn6|e ωə6eω! ens e!ə|ɟə!ou no e!p e '„əч|nω„ e٨esuəd opuenΌ iəs-nouox!ede :n!qoכsəp ənb ə|ənbe ωəωoH ·ωəωoч ωn ọs eə ənb əч|-e٨e|e ·əs-n!٨ opuenb noed ə noч|o ə|Ǝ ·eə o oч|ədsə o ənb əs-ə٨ 'sạ٨ee opueч|O ·oəכ e٨esə seω 'nox!əp e 'n!ed oeכֿeoכ nəS ·eo6e eə oч|ədsə :oч|ədsə eə eo6e nəs oeכֿeoכ ·n!ed 'e-nox!əp seW ···e٨esə oəכ ·opueч|o 'sạ٨ee ə٨ əs ənb o 'oч|ədsə o eə ə|ə :noч|o ə noed opuenb n əS ·e٨e|eɟ əч| ənb eə - ọs ωn 'ωəωoч - ωəωoч ə|ənbe ənb n!qoכsəp 'nouox!ede əs opuenΌ ·e٨esuəd əч|nω e e!p no ə!oN ·e!ə|ɟə ens ωə6eω! ωn6|e oч|ədsə :oueəuə |e!כədsə eƎ ·ə٨ e!qes ənb e əч| eə eu∀


(ωoכ·ods6o|q·oч|ədsə-sode 6od 6o|q op oכֿəəpuə o en!sqns 's!ou səəכeeכ ωə o o ə| əs!nb əS)


Atenção: Se algum dos caracteres do texto acima não puder ser mostrado em seu computador (vai aparecer um quadradinho no lugar), clique AQUI para ver uma i
magem do texto.

31 de março de 2009

Ânuo

Os corredores da universidade (não os atletas, os passadouros) ficavam apanhados de estudantes no início do período letivo, como era de se esperar. A falação, a correria (fazendo jus ao nome do cômodo em que se encontravam); centenas de adultos que acabavam de deixar pra trás seus ser-crianças, e que agiam como que num último impulso pueril: era o último primeiro dia de aula de suas vidas. Sendo assim, todos conheciam seus novos colegas, e com animação experimentavam aquilo que definitivamente não seria sua rotina nos próximos anos. Entre eles um homem mais velho, do alto de seus quarenta anos e quase dois metros de altura, por entre o cerrado da barba e de dentro de uma camiseta branca lisa e de um jeans, cumprimentava os calouros, recebendo-os com afeto. Dois professores caminhavam em meio aos novos e antigos alunos, em direção a uma sala onde uma reunião especial de início de período ocorreria.

- E lá está ele de novo, lá fora - começou um dos professores (um velho mal encarado e de cabelo engraçado) a reunião -, cumprimentando os calouros. Por que ele faz isso?
- Mas que mal há nisso, professor? - retrucou uma professora com cara e jeito de boazinha - Ele não nos prejudica em nada!
- Me é um pouco irritante.
- Ora, nunca proibimos ninguém de entrar nesta universidade; ele não está invadindo. Só porque ele não é aluno não quer dizer que não possa permanecer aqui. Eu só gostaria de saber o porquê de, a cada período, repetir a mesma encenação. Todos os que já estudam aqui há pelo menos um ano já sabem que ele não é filiado à universidade. O que será que ele quer?
- Sinto um pouco de pena - disse alguém que não havia falado ainda.
- Já pensou que ele pode ser maluco? - Um outro professor.
- Oras, já pensaram, senhores, que ele pode simplesmente ter uma absurda vontade de estudar na universidade? Há pessoas que de fato ficam malucas tentando - novamente a mulher boazinha do inicio da conversa -, e segundo o projeto político pedagógico....

A assembléia continuou por todo o dia, até que, finalmente, como a tempestade depois da calmaria (pois sempre citam a calmaria, mas nunca a comparação contempla a tempestade, que é a parte mais bonita da coisa), a porta da sala se abriu.

O homem dos corredores se despedia dos novos amigos calouros (que só o veriam novamente depois de um ano, quando a próxima leva de novatos chegasse - momento em que lembrariam dele e achariam graça) quando duas professoras o abordaram. Explicaram a situação, e informaram tudo o que havia se discutido, para, enfim, fazer o convite. Disseram-lhe, sorridentes, que ele ganharia uma bolsa de estudos e que poderia estudar ali nos próximos anos! A reação, entretanto, não foi a que as duas esperavam. O homem ficou imóvel, sério. Ele olhou bem as duas, o cenho franzido, como se não entendesse bem o que lhe diziam, e disse, enfim, resoluto:

- Mas por que diabos eu ia querer estudar?

20 de março de 2009

Sobre a amizade

Tive, quarta-feira passada, oportunidade de passar a noite conversando com algumas pessoas que considero muito agradáveis. Foi uma noite muito divertida, e no meio de uma das deliciosas (sempre o são) conversas, pude perceber - tardio - uma coisa sobre mim.
Ao leitor que estivesse ausente, explico: conversávamos em certo ponto sobre amizade, e uma das pessoas que lá estava discutia como tinha medo/raiva de pessoas que "roubavam" seus amigos, transformando-os em algo diferente enquanto estivessem presentes. Me posicionei dizendo que não entendia esse tipo de relação de posse que as pessoas têm em qualquer relacionamento, e neste ponto, a partir da fala dela e da minha, pude compreender muitas coisas.
Revisitando todas as minhas amizades e observando as relações de algumas das pessoas que estavam lá quarta, amigos há bastante mais tempo do que me conhecem, consegui enxergar que não possuir esse tipo de relação com as pessoas é justamente o fato que rege minha rede de amigos e meu próprio conceito de amizade. O jeito como se se estabelecem os grupos de amigos (este observado quarta-feira, por exemplo), as ligações, as ações, os contratos implícitos, eles não podem de modo algum se aplicar sem que haja essa relação de posse. Não tendo (e não demonstrando) eu esse apego, esse prender-se ao outro, as pessoas que me rodeiam não conseguem alcançar o nível mínimo de intimidade para uma amizade de fato, nem consideram-se (enganam-se todos) queridos o bastante.
Pensando bem, minha meia dúzia de amigos divide-se em dois (não tão) distintos grupos: o primeiro, daqueles que tiveram algum tipo de decepção ou desapontamento e por isso (ou não) não confiam nem se aproximam mais de mim, mas que, por termos uma relação muito forte, é impossível separarmo-nos; e o segundo, composto por pessoas com as quais não converso ou que não vejo quase nunca, mas que quando encontro ou converso é como se tivéssemos nos visto no dia anterior. Sendo assim, a condição básica das minhas amizades é, triste conclusão, a distância.
Não quero, com tudo isso, desconsiderar as pessoas que estão à minha volta e que gostam de mim tanto (ou um pouco menos) quanto gosto delas. Mas esse pequeno parágrafo resulta desimportante, acredito, pois a ninguém são soaria interessante o título de amigo sob o preço de afastar-se do objeto da amizade.
Resumindo essa agumentação pobre e patética, ela própria se faz improfícua; não se pode mesmo, discorde se quiser, esperar de alguém que não tenha amigos que escreva um bom texto sobre amizade.

19 de março de 2009

Falta de mim.

(imagine algo interessante aqui)

3 de março de 2009

Déjà vu

Começa assim: ele tem a ligeira impressão, que não é nada ligeira mas sim arrastada, como se demorasse mais do que o tempo que dura – definição que agradaria Bergson –, sensação no mínimo assustadora. Ele, entretanto, acha graça a princípio, afinal tem completa certeza de que aquele momento, em todos os seus detalhes, desde seus pensamentos até suas sensações e toda a construção do mundo como lhe é apresentada, já aconteceu antes. O momento seguinte, surpreendentemente, se faz exatamente do mesmo modo: como que previsto. A verdade, pensa ele, é que não previu nada, mas a sensação de já ter passado por aquilo se repete para cada evento – inclusive para esse exato pensamento. Ele sabe o que está acontecendo. Logo essa sensação vai passar (e inclusive essa certeza parece ele já ter experimentado), e a vida continuará como era antes do estranho fenômeno neurológico – como preferem os homens da ciência rotular.
Ele, enquanto pode, aproveita, acha graça, uma graça que tem certeza já ter sentido, uma perplexidade repetida, uma seqüência de eventos perturbadoramente iguais a outros que ele sabe que nunca experimentou, embora sinta que já. Esse saber certamente nunca ter experimentado aquelas coisas, com o tempo (tempo?), vai desvanecendo, e essa teoria tornando-se fraca, pois a sensação não passa. Será que ele de fato já passou por tudo isso? Viagem no tempo? Pré-cognição? Não parece caso de super-poderes.
Começa a ficar desesperado. Um déjà vu não dura mais que alguns segundos, e faz cinco minutos que o mundo, em todos as suas manifestações, se repete diante de seus sentidos. Ele tenta fazer algo inusitado, como se jogar no chão ou gritar uma palavra inventada (coisas que ele não teria feito em um possível passado muito parecido com o presente), mas ele sente que também aquilo já experimentou.
Ele entende que, se esta sensação se estender ininterrupta, até o fim de seus dias, não fará mais sentido acreditar em (ou nem sequer dizer o vocábulo) tempo. Presente, passado e futuro já não são bastantes, ou talvez sejam palavras demais agora para definir ou tentar abocar o que é tempo. Ele (o personagem, não o tempo), nesse momento, passa a existir em um outro tipo de realidade, passa a ser um sujeito fora do mundo, já que este é ontologicamente relacionado (leia-se dependente) ao tempo. Na verdade, se tudo o que ele pensa, planeja ou faz se lhe parece (e o que lhe parece é o que define sua realidade) já anteriormente feito, e esse momento “anterior” é subordinante do agora, ele não é um indivíduo ativo. Só faz aquilo que faria pois já fez. Ele não é nada, senão expectador de uma série de eventos que já presenciou antes (mas que nunca aconteceu de fato).
Ele decide, pois, que irá acabar com essa agonia, e sobe as escadas do prédio. Vai até a cobertura e, sem emoções (pois sem o inusitado, sem a sensação de descoberta, de desvelamento do desconhecido, as emoções são diferentes: mais fracas). Salta. Os poucos segundos que demora pra chegar até o chão decorrem sem grandes emoções, pois tudo aquilo não tem nada de novo. Mas a beleza da queda vertical, retilínea, do corpo está no fato de que está tudo chegando ao inicio. O momento do encontro com o chão, como o esperado, é algo que ele sente já ter experimentado. Algo que parece sóbrio, parco, mas o seguinte!
Ele finalmente sente algo que sabe nunca ter sentido, apesar de não estar de volta no mundo nem inserido de volta no tempo. Ele finalmente é; não-sendo.

Déjà vu

Começa assim: ele tem a ligeira impressão, que não é nada ligeira mas sim arrastada, como se demorasse mais do que o tempo que dura – definição que agradaria Bergson –, sensação no mínimo assustadora. Ele, entretanto, acha graça a princípio, afinal tem completa certeza de que aquele momento, em todos os seus detalhes, desde seus pensamentos até suas sensações e toda a construção do mundo como lhe é apresentada, já aconteceu antes. O momento seguinte, surpreendentemente, se faz exatamente do mesmo modo: como que previsto. A verdade, pensa ele, é que não previu nada, mas a sensação de já ter passado por aquilo se repete para cada evento – inclusive para esse exato pensamento. Ele sabe o que está acontecendo. Logo essa sensação vai passar (e inclusive essa certeza parece ele já ter experimentado), e a vida continuará como era antes do estranho fenômeno neurológico – como preferem os homens da ciência rotular.
Ele, enquanto pode, aproveita, acha graça, uma graça que tem certeza já ter sentido, uma perplexidade repetida, uma seqüência de eventos perturbadoramente iguais a outros que ele sabe que nunca experimentou, embora sinta que já. Esse saber certamente nunca ter experimentado aquelas coisas, com o tempo (tempo?), vai desvanecendo, e essa teoria tornando-se fraca, pois a sensação não passa. Será que ele de fato já passou por tudo isso? Viagem no tempo? Pré-cognição? Não parece caso de super-poderes.
Começa a ficar desesperado. Um déjà vu não dura mais que alguns segundos, e faz cinco minutos que o mundo, em todos as suas manifestações, se repete diante de seus sentidos. Ele tenta fazer algo inusitado, como se jogar no chão ou gritar uma palavra inventada (coisas que ele não teria feito em um possível passado muito parecido com o presente), mas ele sente que também aquilo já experimentou.
Ele entende que, se esta sensação se estender ininterrupta, até o fim de seus dias, não fará mais sentido acreditar em (ou nem sequer dizer o vocábulo) tempo. Presente, passado e futuro já não são bastantes, ou talvez sejam palavras demais agora para definir ou tentar abocar o que é tempo. Ele (o personagem, não o tempo), nesse momento, passa a existir em um outro tipo de realidade, passa a ser um sujeito fora do mundo, já que este é ontologicamente relacionado (leia-se dependente) ao tempo. Na verdade, se tudo o que ele pensa, planeja ou faz se lhe parece (e o que lhe parece é o que define sua realidade) já anteriormente feito, e esse momento “anterior” é subordinante do agora, ele não é um indivíduo ativo. Só faz aquilo que faria pois já fez. Ele não é nada, senão expectador de uma série de eventos que já presenciou antes (mas que nunca aconteceu de fato).
Ele decide, pois, que irá acabar com essa agonia, e sobe as escadas do prédio. Vai até a cobertura e, sem emoções (pois sem o inusitado, sem a sensação de descoberta, de desvelamento do desconhecido, as emoções são diferentes: mais fracas). Salta. Os poucos segundos que demora pra chegar até o chão decorrem sem grandes emoções, pois tudo aquilo não tem nada de novo. Mas a beleza da queda vertical, retilínea, do corpo está no fato de que está tudo chegando ao inicio. O momento do encontro com o chão, como o esperado, é algo que ele sente já ter experimentado. Algo que parece sóbrio, parco, mas o seguinte!
O seguinte é um momento completamente diferente de qualquer outro que já tenha experimentado, e por isso, é claro, nada próximo do que esperava. Ele lembra novamente de Schopenhauer, que dizia que viver é ler as páginas de um livro, e sonhar seria folheá-las. Lembra de Dunne, dizendo que possuimos a eternidade em nós (a experimentamos nos sonhos), e que no momento de nossa morte teríamos pleno acesso a ela, podendo manejar todos os momentos de nossa vida e rearranjá-los como quiséssemos. Morrer é sonhar indefinidamente?
Ele finalmente entende! O que acontece é que já havia, de fato, experimentado todos aqueles instantes, mas no momento de poder manipulá-los, decidiu: aconteceriam novamente, do exato modo como haviam sido, na exata mesma ordem, e assim, no fim, quando chegasse novamente o momento dessa escolha (pois o fim também é um momento), este também se repetiria, forçando os anteriores (e ele próprio) a se repetirem, num ciclo infinito. E assim o será por toda a eternidade.
Sua existência agora é diferente de antes, mas é mesma, pois sendo e não-sendo ao mesmo tempo é repetição (pois já era assim), mas sendo uma repetição da diferença não pode ser o mesmo que era. Repetindo as palavras de outrem, diante da beleza dessa conclusão, qualquer incoerência resulta desimportante.

11 de dezembro de 2008

inter-

Curioso som, o de uma folha de papel amassada – não mais em forma de esfera, mas agora em forma aleatória –, chocando-se primeiro com outra folha amassada, depois com o chão de madeira do quarto. Não pergunte pelo absurdo dessa descrição: o som é sim audível, estando os objetos dessa cena mergulhados no quase mais completo silêncio. Há, além desse som, somente dois outros, o de uma respiração, quase surda – mas perceptível para um elegante narrador onisciente, é claro (este que na verdade não sabe de nada ainda, pois o espaço abaixo, ainda que prestes a ser preenchido, é agora ainda branco); e um outro, o mais alto de todos os barulhos presentes, uma seqüência aleatória de sons violentos de algo sendo chicoteado, mas sem o eco doloroso de um chicote. Um som mais seco, como se estivessem a surrar uma superfície com uma vara. Som que seria percebido por qualquer outro personagem capacitado a ouvir dentro deste ambiente no qual a cena está encerrada: um quarto, uma sala, um cômodo qualquer, de chão de madeira e paredes e teto ainda invisíveis para um leitor. Imaginará o leitor paredes brancas, azuis, vermelhas, de madeira, de tijolos, parede alguma (o infinito)? Não é importante. Concentremo-nos no chão. Está coberto de folhas amassadas, como aquelas sobre a qual a narrativa se focou em seu princípio. Algumas muito bem amassadas, em uma esfera quase perfeita, outras quase planas ainda, só com metade amassada por uma mão nervosa. Outras, nem um nem outro: parece que a mão que as amassou teve pena, e amassou pouco. Talvez, mas ainda assim jogou-as com as outras.
O barulho mais alto, sem mais, e apenas para aqueles leitores que não deduziram – ou melhor, não induziram –, é o som da máquina de escrever no qual a figura sentada à mesa escreve (sim, há uma pessoa, uma cadeira e uma mesa, ainda que tenham vindo à tona rápido demais; definitivamente uma falha estilística do autor). Mas não culpem-se os que não já sabiam de antemão. A explicação pobre do som a que analisamos não pode ser referencial de boa descrição. Ora, mas pudera: tentar descrever uma experiência indescritível como um som ou uma cor sem utilizar-se de outros sons ou cores, ou de sensações análogas, que nunca mostrariam a verdade daquela sensação (por exemplo, dizer a um cego que o vermelho é uma cor cálida, viva, o que não faria sequer com que ele imaginasse a realidade do vermelho) é tarefa no mínimo complicada. Ainda assim, mais uma vez, pede-se desculpas ao leitor. Ora, agora estamos em condições de entender o que está acontecendo: a despeito daqueles que esperam por uma quebra do clichê, um escritor (ou escritora, também não está definido – assim como não o estão as paredes) frustrado(a) não consegue escrever, e amassa folha por folha, até lotar o chão com elas. O que ele(a) está tentando escrever permanece um mistério. O que ele(a) vê de tão errado em cada uma, entretanto, parece óbvio.
Ele ou ela é um(a) escritor(a) medíocre. Bons escritores não precisam amassar folhas! Eles olham para a folha limpa e não vêem branco; vêem já o texto pronto. São como Michelangelo, que parava de ferir a pedra quando “chegava à pele” da estátua. Além do que, bons artistas, e isso diz respeito nesse caso especialmente à literatura, não deixariam nunca que o narrador de seu próprio texto rebaixasse sua arte, muito menos deixariam que este mesmo narrador assumisse total controle d


(Texto retirado de uma folha amassada encontrada no chão.)

24 de novembro de 2008

Pegadinha!

Oras, quando é que as pessoas vão entender que eu sempre minto?

Madeleine

Duas, três, quatro voltas. Não terminou a quinta; cada vez ficava mais longe daquilo que a primeira desencadeara nele. A quem estivesse a observá-lo, da bilheteria ou de perto da roda-gigante, pareceria não mais que um imbecil. Ora, quem diria esse imbecil que daria com aquilo justamente ali? De férias em uma cidade litorânea, nunca imaginaria que veria um parque de diversões instalado. Era um parque velho, daqueles que pegam estrada, param em cidades pequenas, feiras regionais ou exposições agropecuárias, e assim obtém sustento. Estava lá, espalhado uma quadra longe da praia, mas só abriria à noite. De dia ficava desativado, mas ainda lá, com seus carrinhos bate-bate, seu trem-fantasma (talvez mais assustador assim do que quando funcionando, à noite), e seus brinquedos mais perigosos, ou aqueles que simulavam melhor o perigo, proporcionando ao organismo uma maior produção de adrenalina e cortiscosteróides que, na dose certa, proporcionariam um tipo estranho de prazer aos passageiros. Havia também, no parque, os brinquedos mais infantis, como um trenzinho em forma de centopéia, ou o brinquedo onde estava, agora, o tal imbecil.
Sentado desconfortavelmente, veria quem estivesse olhando da bilheteria ou de perto da roda-gigante, um homem adulto, sentado numa xícara de noventa centímetros de altura, segurando um tipo de volante instalado no centro. A chávena era toda decorada, e parecia mesmo uma xícara de porcelana, onde servir-se-ia chá. Em torno, outras, formando um círculo, numa espécie de carrossel, que ligado deveria girar. A(s) criança(s) que estivesse(m) dentro da xícara poderiam utilizar-se do aro de metal no centro do espaço interno da cúpula para girá-la em torno do seu próprio eixo, além do movimento do carrossel, o que se assemelharia, quando o brinquedo estivesse a funcionar, a um tipo de sistema solar feito de conjunto de chá. Ou uma galáxia, onde cada sistema gira em torno do centro e em volta de si próprio. Se se enchessem de leite as xícaras, poderiam inclusive chamar de via láctea. Mas só havia um homem adulto, e nenhum leite.
Encontrara o parque por acidente; tomara um caminho errado, um desvio, um atalho, não lhe importava agora. Andara pelo parque, perambulara pela cidade carnavalesca (no sentido europeu da palavra) completamente deserta, como se fosse um parque-fantasma, silencioso, perturbadoramente imóvel, assustador. Deparou-se, então, com as xícaras, que achou interessantes. Nunca havia visto tal brinquedo, pelo que se lembrava, e resolveu sentar numa delas, numa daquelas investidas que damos quando estamos sozinhos, sem ninguém para dizer-nos ridículos - os raros momentos em que realmente fazemos algo. A princípio, sentiu-se ridículo de fato, mas, com as pernas abertas e dobradas (pois não cabiam no pouco espaço destinado não a homens adultos, mas a crianças - ou líquidos), segurou com firmeza no círculo meio enferrujado de metal que se ligava por uma barra à superficie inferior do interior da xícara e girou, leviano.
Súbito, aquela sensação trouxe a tona, brusca, de uma só vez, uma lembrança, involuntária: era ele ainda criança quando um parque de diversões chegou a sua cidade natal. Ele só pôde visitar o parque no último dia, por motivos desimportantes, e seu pai deu-lhe um tíquete, e apenas um. Acontece que desde pequeno ele observava, na casa da avó, o conjunto de chá que era o tesouro da família, e sempre desejou ao menos tocá-lo, mas este sempre esteve encerrado na cristaleira, podendo ser visto de todos os ângulos, mas nunca alcançado. Ao ver as xícaras girando e girando a sua frente, não hesitou e gastou seu tíquete. A lembrança da sensação de estar ali, a girar, o vento frio da noite a passar-lhe pelos cabelos, a inércia cuidando para que a xícara continuasse a girar e girar cada vez mas rápido, esse conjunto sensório invadiu todo o seu ser. Este giro leviano, despreocupado do adulto imbecil (como diria seu hipotético observador) recriou o garoto, recriou o brinquedo, o pai, o parque, toda a sua cidade natal, os avós, a casa, a cristaleira, a xícara, tão parecida com aquela que estava agora a girar. E com aquela que esteve outrora também a girar, mas que agora estava novamente, tudo graças àquele simples movimento de mão.
Era ele, durante aquele momento sublime em que tudo isto lhe veio de uma vez, em forma de sensação, a própria Madeleine de Proust, mergulhada no chá cheiroso de uma história, embebida em ser e ter sido. A xícara girando, e assim torcendo também o tempo, era o movimento análogo de toda uma vida, e naquele único momento, irrepetível - pois já repetição - fora ele, ao mesmo tempo, adulto e criança.

10 de novembro de 2008

Necroses

Não faz sentido algum.

Saio de casa e piso, acidentalmente, numa formiga. Ao suspirar, de pena, incinero milhares de bactérias. Mato, mato o tempo inteiro e não só isso: morro também o tempo inteiro. Porque tudo o que nasce neste mundo hora ou outra, inevitavelmente, deixa de ser. Viver nada mais é do que um processo gradual e ascoroso de morrer. Em todas as coisas que conhecemos, as que tocamos e as pelas quais somos tocados, e inclusive no próprio toque, há morte. Tudo está morrendo, tanto quanto matando. O mundo, o palco do que chamamos vida, é uma grande esfera orgânica de mortificação, na qual uma morte colabora para todas as outras, numa cadeia doentia e miasmática.
Por que, então, chamarmos de "vida" o que não passa de uma seqüência ou um grande processo gradual e global de morte? Por que tanto colorido ao que é tão descorado, tão lúgubre, tão amargamente doloroso? Ironia? Esperança? Otimismo? Nos enganamos desde o princípio ao chamar morte de vida; e já que é assim, há alguma lógica em chamar "morte" justamente o ponto onde essa grande e eterna mortificação deixa de acontecer para algum indivíduo? Faz qualquer sentido dizer dela um desprazer, sendo que sabemos muito bem que na verdade só o é para os que ficam "vivos"?
Ora, e não tente, nem por um momento, expressar qualquer tipo de acusação simplista de niilismo (completo ou incompleto, ativo ou passivo) ou pessimismo ao que digo. Não desacredito em nada, nem intento abolir qualquer valor. Quero só chorar uma morte - não de um amigo, pois que isso ainda nunca me aconteceu -, mas de um crítico. E não só: chorar a minha própria, e a de cada um. Sabendo que é tudo o que temos; que só o que é possível é a morte. Que morte é tudo o que vamos experimentar, até nosso fim.


E ainda não faz sentido algum.

23 de outubro de 2008

Alfa e Ômega

Alberto é seu nome, e não se lhe faz desgosto. Apesar de engraçado. Abre os olhos, depois de tentar andar com eles fechados, e de não aguentar depois de um tempo. A manhã, fresca, tem cheiro de chuva passada, aroma de verão. A caminhar pela rua, e não interessa mesmo de onde vem, muito menos seu destino - até porque eu mesmo não lhe poderia dizer, por não sabê-lo -, Alberto não nos pareceria, se lá estivéssemos, a pessoa mais contente do mundo. Aliás, fechara os olhos por um motivo. A simples memória de seu trabalho, rotina desinteressante, mecânica inevitável de uma máquina irrefreável, causa-lhe asco. Andar parece a solução, mas não: a lembrança não lhe escapa do cérebro. Ao ponto em que qualquer um não mais aguentaria e saltaria de um prédio... Acha a solução! Apaga, de uma vez só, tudo o que se relaciona de algum modo com o trabalho.
Anda mais um pouco, agora aliviado, até avistar, no canto, um sujo e maltratado mendigo. Agora que está em paz, não quer em sua alma mais nenhuma perturbação: apaga o mendigo. Ainda mais a frente, crianças brincando num balanço. Apaga-as, por distração. Apenas agora está lá o balanço; apaga-o. Animado, apaga o vendedor de balões e o guarda de trânsito, apaga os carros brancos, que sempre achou sem graça, e depois todo carro. Apagar cada vez mostra-se mais divertido, e ele apaga cada jornal, cada chapéu, cada pacote de biscoito. Apaga o banco. Apaga as árvores e os animais que a parasitam, e um ou outro cachorro. Apaga seu último cigarro (admitamos que nunca o tenha acendido); apaga o amor e o ódio - apesar de pensar que, no fim, são o mesmo. Até a própria rua, a calçada, o chão, o ar, o sol, o ser, apaga tudo.
Agora, e só agora, afinal, Alberto sente-se Alberto. Ausente o mundo, ele consegue finalmente perceber-se, e não só, pode ser o que é de fato; agora, e só agora que está desvinculado de todo o resto. A totalidade (a eternidade também, pois ele apagou também o tempo) resume-se a ele, singular indivíduo. Ah, mas espere, parece que há ainda algo... Alberto terá esquecido de apagá-lo? Abrupto, e ainda sutil, um cheiro fresco, de chuva passada, indefinido; aroma de verão.

18 de outubro de 2008

Me arrependo do que escrevo.

Todo dia eu penso em deletar esse blog..
Mas eu deleto esse pensamento.


PS: Créditos do título para o Luiz (acho).

17 de outubro de 2008

para Luisa (sem título)

Gira, gira, e ao girar
lança, contente, no ar,
um arco-iris a cada volta,
do magenta ao anil.
Terpsícore rodopiante,
se é amada ou é amante
agora já pouco importa:
sumiu..

15 de outubro de 2008

Alguém sabia.

Mas ninguém assobia o que é agelasto.

13 de outubro de 2008

Intercessão; interseção.

Sempre recatado e tímido, uma certa vez, no ônibus, pensou, pensou e decidiu, num impulso - pois há certas coisas que, para fazê-las, há de enganar-se a si próprio ou não se deixa fazer, reprime-se; decidiu e, antes que pudesse pensar o contrário, levantou-se e apoiou na catraca, na frente do ônibus.

Atenção - disse em voz alta - todos! Nunca falei nada em público, mas estou precisando me testar. Precisando testar a mim e ao mundo, precisando saber que vocês também pensam como eu: que a vida é uma trama de conexões e desconexões, o cotidiano é uma rede de desconhecimentos, uma trança de histórias que se perpassam, ainda que não se tenha idéia de que isso ocorra, ou ao menos idéia de quais são essas histórias e de quem são os sujeitos dessas histórias. É incrivel, pensem, como nossas histórias estão interligadas por esse episódio, e como talvez já tenham se encontrado antes, quem sabe depois, mas ainda assim nós não nos conhecemos nem talvez nos conheceremos... E mesmo se nos conhecêssemos no futuro não lembrariamos uns dos outros! Não é incrível pensar nisso e saber que isso acontece o tempo todo à nossa volta?

Silêncio, depois balbúrdia. Ninguém prestou muita atenção no que ele - que foi sentar, vermelho - disse, mas não lhe fez diferença: nunca mais voltaria a encontrar nenhuma daquelas pessoas.

30 de setembro de 2008

Sinuca

Entorna, retorna, revém,
pesada, bigorna,
a culpa do que não fiz
por um triz, ou algo sem
vontade de ser feito.
Choro no seu peito
metade de ser
infeliz.

12 de setembro de 2008

(se) Jogar

Ele tinha um jogo. Em lugares lotados de gente, fixava seu olhar no de outrem, por quanto tempo agüentasse e quem – regra arbitrariamente (mas qual regra não o é?) criada por ele próprio – desviasse o olhar primeiro perdia a partida. Não tinha um nome para o jogo, diga-se rapidamente para que não se faça prolixo, já que era uma coisa que fazia sozinho e só para si. Passou, depois de um tempo, a andar com uma caneta no bolso, a marcar com traços na mão quantas vitórias obtinha em determinada viagem de metrô ou no caminho de algum lugar até qualquer outro.
Nunca ele havia perdido, e já imaginava que nunca perderia; tinha força, uma vibração austera no olhar, não vacilava. Entrou num ônibus, já lançou mão da caneta que estava, como costume, no bolso e olhou decididamente nos olhos cinzas de uma mulher sentada na janela, no meio do ônibus. Ela não desviou o olhar; eram olhos bonitos, de fato, e apesar de fixo nos olhos, o olhar dele foi atingido pelo rosto da moça iluminado de sol e recebeu uma impressão sensível de beleza inusitada. Firme, permaneceu olhando.
Dez segundos passaram, os olhares fixos, a ponte invisível que ligava os dois pares de olhos cada vez firmava-se mais; trinta segundos, quarenta. A viagem desenrolava-se, o resto do ônibus movimentava-se num amálgama de gente atrasada e suada, e os olhares há um minuto e vinte e cinco segundos se contemplavam. Ele agora, completamente encantado com a força e altivez daquele olhar esquecera-se já do jogo e olhava apaixonadamente. Nada mais importava senão aquele olhar... Basta!, ele tinha que se aproximar da mulher.
Deu um passo, olhando para não pisar no pé de ninguém, mas ao olhar de volta para a dona dos olhos cinzas, percebeu, amargurado, que ela com um sorriso maldoso na boca fazia um firme risco de caneta na palma da mão esquerda.

13 de julho de 2008

Homônimos

Acordou atrasado, pegou sua mala e o crachá de identificação e correu pra fora do apartamento minúsculo. Quase perde o elevador; outro morador segurou-lhe a porta por favor. Ele agradeceu, esbaforido, a gravata por apertar e a camisa pra fora das calças. O crachá foi ao chão, ao que o outro, sempre gentil, agachou-se e pegou, enquanto o primeiro ajeitava-se para o espelho do elevador.
- Ora, mas veja que coincidência, vizinho! Somos xarás.
- Também se chama Eduardo?
- Não é que me chamo?
- Que engraçado. - disse, sem mais o que dizer.
- A gente mora a vida inteira num prédio e não sabe o nome dos vizinhos.
- É.
Como que para salvar o primeiro Eduardo, que não sabia conduzir uma conversa - menos ainda quando atrapalhado -, o elevador parou três andares abaixo, e entrou um senhor. Pôs-se no meio dos dois, para alivio do primeiro Eduardo, pois a conversa pareceu que ia interromper. Mas o segundo era de falar, não suportaria ficar dois minutos dentro de uma caixa fechada sem comunicar-se.
- Como são as coisas, não? A gente mora a vida inteira no mesmo prédio e não repara nos outros. O senhor acredita que tenho o mesmo nome do meu vizinho?
O homem não pareceu dar muita atenção, e até ficou um tanto aborrecido por ser abordado assim, o que agradou ao primeiro, mas o segundo continuou:
- Não é, Eduardo?
- Eduardo? - o velho olhou, franzindo o sobrolho.
- Sim, somos os dois Eduardos.
- Ora, mas que coisa! Somos três então!
- Mas veja só!
Os dois pareciam duas crianças animadas com a novidade. O primeiro só queria chegar ao térreo logo. Iria ter que ouvir do chefe novamente. Como era seu dia de azar, aparentemente, o elevador parou mais uma vez, dois andares abaixo. Um homem magro, de barba e óculos entrou, livro debaixo do braço.
- Bons dias!
- Bom dia - responderam em coro o segundo e o terceiro Eduardos.
- Não vá dizer que também chama-se Eduardo, vai? - riu-se o segundo, que era o que mais falava. O homem riu-se:
- Por que?
- Imagine que coincidência incrível, entramos os três, e só os três, no mesmo elevador, e todos chamam-se Eduardo! Não é impressionante?
- É algum tipo de brincadeira? - o barbudo não parecia entender.
- Não, é verdade!
- Mas.. Como pode ser? ...Também eu me chamo Eduardo!!
O caos então instalou-se no elevador de vez. Os três gritavam exaltados que não poderia mesmo ser verdade, que aquilo era história pra ir pro Fantástico, que era digno de algum conto Kafkiano (esse foi o quarto, que parecia ser algum tipo de intelectual); Eduardo, o primeiro, só queria saber de endireitar a gravata. O elevador já não era pra ter chegado ao térreo? Diabos!, pensava.
Quando alguém já pensava em telefonar para um programa de televisão, o intelectual disse, rindo:
- Ok, amigos, desculpem! Desculpem mesmo, mas vocês estavam tão animados com a história dos nomes que não pude fazer outra coisa senão mentir.. Na verdade me chamo Roberto. Desculpem acabar com a graça.
Os outros três ficaram perplexos por um segundo, o mais velho ficou vermelho, o silêncio reinou por uns momentos ainda, até que o velho, ainda rubicundo, disse, finalmente:
- Confesso. Também não me chamo Eduardo. Fui batizado Neemias... Só entrei na brincadeira porque minha mulher vive dizendo que eu sou muito antipático, quis testar um pouco de bonacheirice.
- É... Pra dizer a verdade - o segundo falou, depois de um tempo, olhando para o primeiro - meu nome também não é Eduardo. É Juliana. - Todos olharam com estranheza e em sincronia para ele. Ela.
Eduardo não disse nada, e não diria, mesmo que a porta do elevador não tivesse aberto pela terceira vez: o térreo, finalmente. Saíram os quatro, sem falar. Pelo espelho, uma quinta pessoa poderia vê-los de costas saindo do elevador, tão diferentes, e completamente iguais.

1 de julho de 2008

186

Tinha uma profunda relação com todos aqueles que compunham sua enfadonha rotina, desde os amigos mais próximos àqueles que nem sabiam de sua existência, como o motorista do ônibus, que dizia, todo dia, Olá, ou Boa Tarde. Conjecturava em seu quarto o que as pessoas pensavam, se tinham para consigo também tal apreço, e a cada dia esforçava-se pelo amor destas pessoas. Tinha em sua mente as mais incríveis relações com estas, que tomava por verdadeiras histórias de vida. O motorista do ônibus, que haveria de ser sozinho, sem amigos e um pouco carente de atenção, sentiria, também, uma amizade incrível contida naqueles cumprimentos casuais, e o velhinho do açougue, sempre que lhe dava aquele aceno de cabeça pensava em como era sua vida, e imaginava se um dia haveria de lhe conhecer. Tudo isso poderia muito bem ser verdade, veja-se bem; o fato é que, de sua cláusura de timidez e absurda necessidade - não satisfeita em momento algum - de atenção, não poderia saber. Ainda, mantinha suas relações internamente e pré-conceituava os (des)conhecidos. Este era uma boa pessoa, aquele não. Fato é que qualquer traço de simpatia forneceria razão para que se acreditasse na bondade de alguém; muito provavelmente um assassino simpático seria uma ótima pessoa, em sua concepção.
Numa noite de Novembro morreu: suicidou-se em seu quarto, com remédios calmantes. Ao lado da cama foi encontrada uma caixa de papelão, repleta de envelopes pardos etiquetados. “Motorista do ônibus”, “carteiro”, “atendente loira e alta do caixa do supermercado”, “atendente morena com sardas do supermercado”. Cento e oitenta e seis pessoas receberam cartas no dia seguinte, relatos, roteiros de histórias que nunca haviam acontecido. Verdadeiros romances, até desentendimentos e reconciliações, vidas que só existiram em uma mente, e agora em papel, mas que fizeram-se reais conforme as pessoas as liam. As cartas deixavam claro como alguém havia tido por elas, durante tanto tempo, uma afeição infantil, bonita, como haviam sido imaginadas e como foram amadas. Alguns nunca se sentiram tão queridos, outros ficaram surpresos por serem conhecidos tão intimamente por alguém que nem sabiam quem era. Os cento e oitenta e seis compareceram ao velório. Todos choraram.
Se também tivéssemos recebido uma carta e também estivéssemos no velório, poderíamos experimentar nos aproximar da pessoa no caixão, e se prestássemos bastante atenção, veríamos claramente um rastro de sorriso satisfeito, pueril, no canto da sua boca. Estava feliz.

5 de junho de 2008

Colisão

Traduzi-la em palavras seria ultrajante. Tratando-se dela, ao menos trabalho extenuante. Trazia uma tradição de tratar-nos bem para logo nos trair. A trama, travestir-se de atraida e depois, tranquila, trancar-se sob uma trança de destrates até transformar-nos em trapos, extraviados da rota tradicional das paixões. Trouxas, é verdade, mas, trastes que eramos, depois de traçada sua traiçoeira marca, não havia outra.
Eis que, transferido de uma vila tranquila da Australia, veio pela estrada o aluno novo. Atrasado sempre, destrambelhado, tropeçando quase, entrou na nossa trincada e translatória rede de relacionamentos. Ela, já do inicio, lhe trilhou destruição: tramou, treinou, transitou e entregou-se - atriz -, mas o aluno novo, impenetrável, tratou de troçar dela, estragando a tradição. Ela travou. Tremeu. Transtornada, retirou-se.
Mais tarde, triste, no trem das três, trombou com ele, atrás da catraca, a travar dialogo, distraido, com outra estranha:
- Por um triz, Teresa, não te traio.

19 de maio de 2008

Distância

Dizia já, em poema,
uma certa poetisa,
falando do meu problema
sem saber. Analisa:
quando tenho abertos olhos
fico até bem a vontade,
mas se penso em você
fecho os olhos de saudade.

7 de abril de 2008

Novo Princípio

Oras, depois de um surto de ócio geral, de uma auto-classificação aporética e uma enfim reviravolta criativa (que foi só volta, no fim das contas), retorna o filho pródigo ao lar não tão confortável quanto o da parábola mas tão acolhedor quanto. Volto a escrever esse ano, não só porque tenho de o fazer para não chegar a um definhamento metafísico, e não só também porque resolvi pesquisar literatura em teoria - decisão de que provavelmente vá me arrepender depois, que já repudiei, e pela qual me odiei tanto, mas que é a única saida para uma exigência burocrática e ritual da academia - pela qual tenho que passar. Em outras palavras, preciso pesquisar algo em teoria, e menos mal se for uma paixão do que qualquer outra coisa. E, pra falar a verdade, estou até gostando. Apesar de todas as implicações que isso tem sobre minha ideia de literatura, formada; rocha imutável e indelével - mas, pobre, não imune ao martelo do pragma. Tudo bem, hora ou outra ela está de pé de novo.
Para comemorar esta nova fase, portanto, rebatizei o blog. Aparentemente ele nunca teve visitas regulares antes, então não será drástico a ninguém. Após tentar outras coisas (que já existem em endereços de outros blogs - os quais não me dei ao trabalho de checar se eram bons ou não), decidi por "Graptós". Não é o mais agradável nome aos ouvidos, talvez não também aos olhos, mas agradou-me a razão. Afinal, αυτό που γράφεται, γραπτός είναι. O que foi escrito, escrito está. Espero, de verdade, que as pessoas que talvez leiam o que escrevo continuem gostando - ou passem a gostar - e apreciem a nova fase da minha areté literária (e desculpe a prepotência..)!

Boa leitura, e divirta-se!

31 de dezembro de 2007

Perfeição

Parte do conceito de perfeição é a possibilidade de evolução.

18 de dezembro de 2007

Épico (Parte I)

Eu, que vivo solta,
que nunca crio teia,
tenho sangue na veia
e fogo na candeia,
abandonada a qualquer sorte,
sem amigo, sem consorte,
aproveito o mote
e digo sem recorte:
pois ouçam da minha boca,
essa, que não há de mentir,
que antes que fique louca
pretendo repartir
minha história - que não é pouca -,
e pro surdo e pra mouca
não hei de repetir.

Inicio então minha prosa
(que é em verso, na verdade)
debaixo de chuva caudalosa
que no sertão seria novidade
mas que aqui era só chuvosa.
Um peregrino, vulpino,
de olhar acipitrino,
molhado como um menino,
procurando só onde ficar
achou, no bosque escuro,
detrás de grande muro
uma casa a se abrigar.
E dentro da casa, um quarto,
e do quarto, uma mulher.
Mulher de tirar o ar,
de olhar e se apaixonar,
e dentro da mulher, um mar.
Disse ela "Me ajude".
Ao que respondeu o viajante,
hesitante, ofegante,
não obstante o incrível cansaço,
"Minha cara amiga
de face rubicunda
por um prato de comida
e descanso prá corcunda,
diga o quê, e eu faço."
"Essa casa é minha trela",
disse ela,
"minha presilha e fivela.
Não posso sair dela,
pela porta ou pela janela,
e nem pela chaminé."
Olhou-a, e diante dela,
tão linda, tão bela,
ele esquece a procela
que lá fora se desvela
e se põe de pé.
...
(continua)

15 de dezembro de 2007

Lê-la

Cansado de romances previsíveis, de poemas enfadonhos, das emoções chorosas dos apaixonados frustrados e das divagações vazias dos intelectuais, encontro minha resposta literária num volume de capa interessante, mas sinopse não muito animadora. Mesmo assim, resolvo folheá-lo, e percebo pelas bordas das páginas que pouquíssimas pessoas avançaram em sua leitura para além da introdução.
Conforme avanço, envolto na atmosfera brumosa de seus primeiros parágrafos, percebo que estou completamente aliciado à trama, intimamente preso às idiossincrasias e aos requintes de sua narrativa, e essa sensação se agrava quando descubro nas plúmbeas primeiras palavras do capítulo dois que o exemplar que tenho em mãos tem aquela estrutura que tanto me agrada num romance: um oscilar entre um texto despreocupado, sem pretensões, que, leve que é, eleva seu leitor a um estado de densidade mental quase nula, e um texto pesado, apanhado de uma sensação de náusea e desolação, sensação que só será dissipada no próximo capítulo, que será marcado pela leveza do primeiro texto (só para ser novamente arrebatado pelo peso paquidérmico do segundo estilo um capítulo a frente, e assim por diante..).
Assim é que sigo devorando cada linha, cada parágrafo dela. Tentar lê-la, decifrá-la, percorrer os signos de seu corpo como se percorre as formas e o contraste do negrume dos tipos com a brancura do papel; descobrir, a cada vez que se lhe revisita, a linguagem rebuscada de algum gesto simples, algum pequeno recurso estilístico presente em alguma minúcia (somente percebido após ler pela segunda ou terceira vez o mesmo trecho), ou a ironia aristofânica de seus suspiros risonhos; supor, tolo, que se consegue tatear algo pertencente ao domínio do interior da esfera fosca de subjetividade na qual ela se encerra.
É assim a excitante experiência de tentar conhece-la: percorrer páginas e páginas do texto envolvente de sua objetividade física e mental, em cujas entrelinhas encontro o entrecho secreto que vai, capítulo a capítulo, me ensinando a embrenhar-me, a tentar alcançar o íntimo da esfera. Leio e leio, e sabendo que ela também me lê, em um impulso inseguro, tento ser o primeiro a terminar, mas isso só pra descobrir, no auge de minha leitura, que este livro, especialmente, nunca, nunca chega ao final.

12 de dezembro de 2007

(en)Contraste

Ela varria. Varria com desenvoltura, com movimentos de um atleta.. Se houvesse uma modalidade relacionada a vassouras em algum tipo de atletismo. Mas era uma cena bonita. Seus pensamentos, fato, não estariam nas folhas que varria, mas direcionados a outro vento: no marido, no que serviria de jantar à noite, nas cores que o vestido tomava ao ser sacudido pela brisa ou quem sabe até um daqueles aqueles emaranhados de pensamentos, amálgamas de imagens e informações das quais não retiramos nada específico, que são só fiapos de assuntos e afetos diversos que vão tomando, sem compromisso algum, o foco do pensar e se retiram tão logo se tornam algo de fato. Um espaguete de idéias, sem molho.
Mais parecia uma dança. Ela, a vassoura e as folhas secas, num rodopiar guiado pelo vento, fraco, é de se dizer, mas vento. Uma valsa de cores quentes, amarelos, laranjas, marrons e ocres: as folhas, o vestido, a vassoura, a pele, os cabelos da mulher, presos num coque prestes a se soltar e espalhar aqueles cabelos cor de cobre, o céu, já cedendo sua cor para que o sol pudesse apresentar seu gran finale, com um crepúsculo de vermelho e alaranjados que, diria o céu, acabava por ir longe demais. Ora, já tinha cedido parte de seu índigo espaço para o pomposo astro-rei, que com certeza era um daqueles tipos de rei gordo e baixinho, com voz engraçada, e, não obstante ter aceito a oferta que se lhe fez por educação, agora queria o céu todo! Só porque sua mera existência possibilita toda a vida no planeta, e porque se faz símbolo de excessivos significados para os humanos, se acha deveras importante. Queria ver, pensaria o céu azul - agora reduzido a uma pequeníssima faixa azul a leste -, se não houvesse a aqui esquecida atmosfera, para filtrar seus raios mortais de radiação. E ela, coitada, humildemente aceita os poucos agradecimentos que se lhe dão volta e meia... Mas quem olhasse o espetáculo não prestaria atenção às palavras resmungantes do céu, e sim nas coloridas e mudas palavras do sol, que, sem falar nada, dizia tudo.
O único detalhe destoante naquela paisagem eram os olhos da mulher. Repousando nas relaxadas pálpebras que quase não piscavam e perdidos em algum lugar, impossível de localizar espacialmente; duas gemas do verde mais verde que se poderia ver na natureza, eles pareciam velas de uma chama verde num escuro vermelho, aparecendo e sumindo conforme a mulher girava ao varrer as folhas da calçada. Era impossível a qualquer um não perceber os olhos verdes daquela mulher naquela tarde de outono. Exceto ela mesma, a mulher, que, não ficará aqui claro se por infortúnio do destino, da lógica ou da formação biológica do ser humano, não poderia nunca ver a beleza daquela cena. É o modo da natureza dizer que não se pode ter tudo. Aos que possuem toda a beleza do universo em si, resta a tristeza de não poder ser espectador dessa beleza.
Eis que, numa lufada mais forte do vento, que, já foi dito, não era forte, era uma brisa relativamente jovem, mas que, ao ouvir isso, se esforçou como que para provar que era fraco porque o queria, e só por isso, algumas folhas se elevaram no ar e uma única, das poucas ainda verdes, soltou-se de alguma árvore e foi parar bem no meio das folhas secas. O verde dos olhos da moça, no momento em que se deparou com o verde da folha, de beleza acentuada pelo contraste - e talvez, pense o leitor, pudesse se dizer também isso em relação aos olhos da moça, mas estes não: realmente eram de chamar atenção - com as folhas de coloração sanguínea arrumadas em uma pilha pela vassoura da mulher; neste momento em que se encontraram os iguais, verde e verde, ela parou por um momento de varrer e de pensar - ou não pensar, como preferir - e olhou. Quando dizem que os opostos se atraem, fala-se de uma atração muito superficial, como era a destes olhos femininos com aquelas folhas secas e a paisagem flamejante daquela tarde. Eles estavam ali, em harmonia, um ressaltando a beleza do outro, formando um quadro perfeito e digno de qualquer pintor de renome. Mas a verdade, e não digo por dizer, pois vi esta cena que lhes descrevo acima e posso falar, é que a verdadeira atração se dá quando a harmonia se quebra.
Quando se encontraram as belezas coloridas, a dos olhos e a da folha, como se finalmente os olhos pudessem ver aquilo que, como antecede, não podia, pelas complicações da anatomia humana e da lógica, eles pararam e olharam. A verdadeira atração - não aquela a que se refere o dito de que os opostos se atraem, esta já foi analisada: é somente uma atração de convenção, harmonia; a verdadeira atração se dá nestes momentos em que os olhos de uma parte, ao receberem a luz que se reflete no outro e que vem lhe tocar a pupila e imprimir uma imagem na mente, simplesmente se surpreendem. Esta verdadeira e mais forte atração não se baseia na harmonia, mas sim no abalo, na desarmonia, pois é nos momentos de surpresa, do inesperado, que de fato se olha e atenta-se ao outro, pelo qual se está sendo atraído. E isso é o que se pode chamar não só de atração, mas de paixão. Pois a paixão nada mais é do que essa surpresa e esse reconhecimento da beleza que se reflete no outro e vem tocar a sua própria beleza, as duas se tornando uma só, como é com o olho e a folha, como é com o verde e o verde, como é com o contraste e o contraste.
Mas eis que, o vento, talvez por sentir-se um bocado esquecido por este narrador - que o deveria ter previsto, afinal, é uma brisa jovem e há de agir de seu jeito pueril - e querer chamar a atenção pra si, lança uma nova lufada, que levanta a folha verde do chão, e vai levá-la para o alto, até sumir da vista dos verdes olhos que a acompanham lá do chão. Novamente, os verdes dos olhos da mulher ficam sós na imensidão avermelhada. Ela abaixa, então, a cabeça e, após um segundo, volta a varrer. Faltou dizer, é claro: a atração de que se trata aqui, esta que chamamos de paixão, não se demora como aquela atração conveniente antes apercebida. A atração harmônica pode ser eterna, se assim as partes lhe quiserem, pois a harmonia não acaba por si só. Não ocorre o mesmo, entretanto, com a surpresa. O inusitado só é inusitado por ser novo, e o que dura não pode durar sendo novo.
Há de se concluir - triste conclusão, talvez - que a paixão, portanto, somente se dá no momento em que as partes ainda se surpreendem entre si, ou seja: enquanto há a desarmonia. Porque o ser humano não busca, por sua natureza, a calmaria ou o sossego, muito menos o mesmo. Procura-se a cada momento o outro, o novo, e ainda: a beleza do outro e do novo; beleza que se reflita na sua e ao mesmo tempo sirva de espelho para que a sua também se reflita. Que sejam mesmo - por serem ambas belezas e reflexos das próprias belezas - e outro - por serem o novo.
De volta a varrer, a mulher continua sua dança, mas nem a dança agora parece tão bela, nem o crepúsculo, e nem os olhos. Sem a paixão, este que se lhes apresenta como um bom narrador não pode deixar de concluir: sem ela, a beleza não é senão simplesmente frugal.

Princípio

Esse é o blog (en)Contraste; seja bem-vindo.
A princípio, aqui serão apresentados alguns textos de minha autoria, para aqueles que gostam de lê-los. O primeiro é o texto que dá título ao blog, mas não é nem de longe um texto que esgota a proposta. O jogo contido no nome "(en)Contraste" pode ter diversas interpretações, e cada uma delas é válida, desde que você a descubra sozinho.
Gostaria que, se você lesse algum dos textos aqui apresentados, comentasse. Sei muito bem que alguns deles são ruins, mas nenhum deles está terminado. Nenhum texto nunca está. Sempre é possível riscar, rabiscar, buscar ou até rebuscar.

Divirta-se, e boa leitura!