30 de abril de 2010

Mergulhador de Aquário

Marina já ao nascer recebeu dos pais o nome que lhe definiria até sua morte. Quando criança, passava a maior parte do seu tempo na praia, sentindo o vento salgado que soprava de longe, do horizonte. Vento que acariciara baleias e sereias, rostos de pescadores e palmeiras de ilhas desconhecidas e trazia pequenas moléculas de tudo isso para ela, que por sua vez as capturava com seus braços abertos. Cresceu, e entrou no mar, ao encontro do que só experimentara até então com a pele: tornou-se mergulhadora profissional.
Não havia medo, não havia receio. Ela era um peixe, ou melhor, uma gaivota curiosa e sem fome, que mergulhava decisiva, não pra devorar criaturas marinhas, mas pra observá-las de muito perto, com os olhos arregalados. O mar era um território conhecido, onde se sentia a vontade e acolhida. Nadava como se fosse, também, feita de água salgada, como se, quando saísse do mar, precisasse colocar uma máscara pra respirar aquele ar tão leve, que deixava seu corpo tão pesado.
Foi contratada por um grande aquário para mergulhar ao tanque das tartarugas e bater fotografias de divulgação; ao descer, desesperou-se. Mergulhar num aquário, apesar de enorme, era muito diferente de mergulhar no mar. Era uma garrafa, uma caixa claustrofóbica, sem saida, escura; seu corpo estava mais pesado e ela desmaiou.
Seria agora hora de um herói entrar na história, alguém rápido, um bom nadador, mergulhador profissional de aquário, surgir por entre a âncora falsa decorativa, no meio das tartarugas-marinhas, ou melhor, das tartarugas-de-aquário, e salvar Marina. Mas não, ninguém veio... Como se sabe, não existe tal coisa, um mergulhador de aquário.

13 comentários:

Beatriz disse...

Me lembrei da primeira vez que fui num aquário. Senti pena da tartaruga, num tanque tão pequeno, nadando de um lado para o outro como se não aguentasse o vidro sendo batido e os flashs dos desavisados.

Ferreira, Lai disse...

Dessa vez não estragou tudo.

Daniel Contage disse...

Engana-se.

Anônimo disse...

Como sempre, você, Daniel.

Daniel Contage disse...

Estranho. Sempre concordo com o que você diz, Anônimo, mas dessa vez não sei se me parece correto. É você mesmo?
Sou eu, claro, porque em todo texto inevitavelmente sou eu. Mas não é como sempre, não. Nesse texto eu não estou, não apareço, não estou nem metaforizado.. Inclusive digo com as palavras mais simples e diretas que eu não estou lá.
Eu poderia aparecer, mas ninguém aparece. Eu não sou a Marina, isso você com certeza entendeu. Não sou o aquário, não sou as tartarugas, muito menos o mar.

Eu não estou nesse texto, e por isso ele talvez marque uma nova fase do blog. Talvez. Seria uma pena. Mas vamos ver o que acontece.


É estranho, achei que você não ia mais comentar depois do w.o., mas você aparece num momento pouco surpreendente (ou, com isso, não apropriado) e diz algo que não me convence. Talvez estejamos entrando numa nova fase do Anônimo também. Seria uma pena. Mas vamos ver o que acontece.

Ferreira, Lai disse...

Vim retirar o que disse. Teu livro não é chato. Eu gostei do capítulo, finalmente li. E não dá pra não notar semelhanças com o Calvino, né.

E, Anônimo, assim você me decepciona. Logo eu, que te esperei por tanto tempo.
Acho que vou ter que concordar com o Daniel e achar que não é você, é só um impostor. O pior dos impostores, pois se disfarça de anônimo. Pff

Daniel Contage disse...

Acho que o que eu quero é reescrever o Calvino do jeito que eu acho que deveria ter sido, mas com uma "pegada" de Saramago, sabe? Hauhauha!

Mas é chato sim. Tava pensando em reescrever o Capítulo 1, o que acha?

Anônimo disse...

q triste...
(e lindo tb)

tile disse...

q triste...
(e lindo tb)

Ferreira, Lai disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
livia disse...

descobri seu blog!

Daniel Contage disse...

Hahahaha, depois de anos! Mas beleza. Tente não se chatear muito por aqui! ;)

Daniel Contage disse...

Gente, vendo hoje em dia, eu fui meio cruel com o Anônimo, acho.

O comentário até era pertinente. Como sou escroto..



VOLTA, ANÔNIMO!