1 de outubro de 2010

Caixa de Pandora

Contra o chão da calçada o homem se arrastava e se encolhia pra se proteger das pancadas do policial. Um círculo de pessoas se formava em torno do bizarro espetáculo de violência, mas o fardado não se intimidava - na verdade o público lhe fazia aumentar ainda a convicção dos movimentos.
Batia com força, chutava com o bico do coturno o homem que, magro, sujo, de farrapos por veste e nada nos pés, não abria de jeito nenhum a mão. O punho cerrado não cedia, por mais que o policial vociferasse maldizeres e ordenasse que abrisse. A mão, por sua vez, só crispava-se mais e mais em torno da prova do crime que procurava o oficial.
A surra começou a ficar sangrenta quando entrou em cena o cassetete. O bastão subia e descia no ar, e o rosto do mendigo se desfigurava e escurecia a cada descida. Nenhum dedo da mão dele ousava afrouxar. Nenhum observador ou passante ousava ajudar, tampouco.
Eis que, depois de considerável tempo, contra o negro do chão, do sangue e da mão, que, inerte, relaxou, escapou por entre os dedos duros o segredo tão preservado: uma pequena borboleta azul voou sobre o corpo e sobre a multidão, e sumiu contra o anil do céu.

6 comentários:

Dominique Barenco disse...

LINDO!!!!!!!!!!!! Isso me lembra aquela história que te contei de um policial espancando um mendigo por causa de uma merdinha de um baseado. Um dia podia vir uma borboleta gigante azul e matar o policial de porrada. rs beijo

Daniel Contage disse...

Escrevi baseado nessa história mesmo!! :)

Anônimo disse...

escreve outro logo! faz tempo já

Daniel Contage disse...

Desculpe, desculpe! :)

Renata Lima disse...

Adorei o post!!! Amei o blog..
bjos

http://blogamodaantiga.blogspot.com/

Daniel Contage disse...

Ei, obrigado, Renata!
Vou visitar o seu, claro! ;]