2 de setembro de 2010

Alvoroçer

Cada um está em seu lugar. Os primeiros fregueses da manhã, os olhos ainda apertados, indo para o serviço ou simplesmente adeptos do cedo acordar, a bocejar no balcão; a menina que recebe os pagamentos no caixa, a sorrir simpática e um tantinho sedutora, esperta, mais clientela retorna, mais comissão - comissão é a estratégia de ouro num pequeno negócio; os dois rapazes do balcão, um simpático, sorriso no rosto cansado, o outro carrancudo mas organizado como uma abelha no estoque e cozinha; eu, como sempre, do outro lado da rua, a olhar tudo e fumar um cigarro.
Meu trabalho se resume a pagar os funcionários, não permitir que nada saia do controle e, no mais, observar e fumar. Observo o efeito da manhã nos transeuntes, nos clientes e nos funcionários deste pequeno estabelecimento: a manhã silencia. Enquanto a tarde chama um diálogo produtivo e a noite chama um desmedido, selvagem, a manhã ainda carrega consigo um pouco do solipsismo onírico, um pouco da intimidade do leito, da solidão do sono, da solitude silenciosa da madrugada. Então as pessoas se calam. Falam só o necessário através das suas gargantas roucas. "Café", "puro", "pois não", "bom dia", "cinqüenta centavos", "bom dia", "pingado", "bom dia".
Até os jovens que trabalham pra mim, que a essa altura já são seres da alvorada, silenciam: o sorriso hospitaleiro, a organização minuciosa, o olhar nos olhos, inocente mas com promessa de sensualidade, tudo isso é envolto pelo mais denso silêncio - mais até que o silêncio madrugal, que não se percebe, pois não se precisa tatear, já que tudo está imóvel. Esse silêncio da manhã é um silêncio que se precisa (não) ouvir, precisa-se atravessá-lo. Não há ecos nas primeiras horas da manhã. Cada som é prontamente engolido pelo silêncio tão logo tenha sido entoado.
Observo por um longo tempo a clientela e meus empregados realizarem sua dança sem música, sua cena sem trilha sonora. Dou um trago no cigarro, e ao fazê-lo posso ouvir o fumo estalar, queimar fazendo barulho de destruição, de consumação. Posso ouvir o som da chama, o som do queimar isolados como ilhas no meio do mar de silêncio que afoga a todos os presentes. Então começo a ouvir outra coisa. Está vindo nesta direção, mas muito distante. Vem aumentando, crescendo e encorpando, um tipo de burburinho, um conjunto de sons diferentes muito distante, quase imperceptível a princípio, vindo de todas as direções. Vem como uma infestação, dominando bem devagar as ruas, casas, rios, céu e terra, de todos os lados até cercar a pequena padaria, e, por fim, a toma. Acaba-se o silêncio: os sons de conversas, automóveis, animais, um certo cochicho do mundo passa a se ouvir o tempo todo, em todo lugar. O silêncio denso se esvaiu, e agora as pessoas até se locomovem mais rápido pelo espaço que ele ocupava. As pessoas despem-se do pouco que lhes restava da subjetividade intimista em que estiveram imersas durante a madrugada e revestem-se dos seus arquétipos preferidos, geralmente barulhentos.
Acendo mais um cigarro, mas este queima em silêncio.

5 comentários:

Beatriz disse...

Lindo isso! Tenho a mesma percepção do som (ou a falta dele) conforme o dia passa. O final da madrugada parte para o amanhacer tão rápido que o "encanto" vai diminuindo.. Adoro ver a outra maneira de ver uma mesma coisa.
Beijosss

Ferreira, Lai disse...

uma coisa que quero há tempos é fumar um cigarro com esse blog, mas nunca me senti à vontade.

(prabl)

fbrum disse...

fala daniel!
to seguindo seu blog!!
abraços

ana disse...

eu gosto de como o cigarro queima em silêncio agora

Daniel Contage disse...

Valeu, Bia! Acho que é por ai, escrever. Fazer o leitor sentir algo, sendo que esse algo é essencialmente diferente do que se escreveu. Talvez por isso arte seja o único meio de realmente se comunicar. :)


Lai, vou pensar em um texto especialmente pra se ler fumando. Sério.


Valeu mesmo, Brum! Vou dar uma olhada no seu, é claro. ;D


E Ana, é sério? Eu não sei muito bem se gosto, não.



Obrigado aos quatro por lerem. Desculpem as respostas frugais. Eu ando bastante frugal.