27 de julho de 2013


Este blog, desde que surgiu como uma idéia meio boba, tem enveredado por um caminho que pouco a pouco foi se delineando conforme os textos iam se desenvolvendo: a tentativa de derrotar o tempo. O tempo, o tempo é o maior inimigo da humanidade, o grande problema, o vilão dos vilões, e se eu conseguisse pelo menos desafiá-lo, nem que fosse brevemente, estaria contente!

Sendo assim, não faz sentido que as postagens sejam organizadas cronologicamente - isso é desde o princípio ser subjugado pelo tempo! Por isso, graças à ajuda do meu amigo Barty, que é um mago da programação para web (te amo, Barty, muito obrigado!), estou disponibilizando este magnífico ORÁCULO!

A cada vez que a página for atualizada, um novo link será exibido abaixo, para uma postagem aleatória, e você não precisará ficar cavucando o blog por uma postagem legal. Teste a sorte!

(É claro, você pode explorar o blog cronologicamente, simplesmente descendo a barra de rolagem. É outra experiência, mas não há de ser ruim.)

O oráculo diz que você deve ler o post...



Boa leitura!

24 de dezembro de 2012

Dom Casmurro

E se a ópera não começa na primeira ária
mas sim já no solo, e depois sim vem o duo
terníssimo?

A vida, em seus mundos,
é uma ópera, viste; pode ver.
E se o tempo, nos olhos fundos,
insiste em, com mistério,
congelar, se reter,
faz-se não importar
um adultério, traição,
um beijo cortês,
um olhar matreiro.
Trair é fazer de dois três,
mas quem é o terceiro,
então?
Quem sabe eu, ou mesmo tu.
Não.
É impossível trair em amor:
Não há culpa, dor, nada se faz,
só há, no mais, Capitu.

20 de maio de 2012

Verdade

E vai lá o homem à lua
e é sua ela agora,
pois a partir da hora
em que se torna crua,
em que a coisa se desvela,
é do homem. Fim.
Pois sim, que sobre ela
por mais que se insista
não se sabe a metade,
não se tem pista;
se queriam a verdade,
se era esta a meta,
por que cientista?
Mandassem um poeta!
Logo desse lá a vista
com crateras, com vazio,
espaço deveras,
estrelas, mais de mil,
num pedaço macio
de papel lunar
em palavras meras
iria descrevê-las,
ou ao menos tentar.
Escreveria do astronauta
o gracioso bailar,
e poria em linhas
a cratera mais alta
e o rolar das pedrinhas
quando, a ela escalar,
desse, surpreso, falta
do mar.
Mandaram (pena?) cientista,
que logo fez esquema,
passou trena, pesou rocha,
sem qualquer ponto de vista
anotou cada minério.
Está ai o problema:
ao se ter nua resposta,
sobre a lua tanta pista,
perde ela
(pois revela)
todo o seu mistério.
Mas venha cá quem vier,
até quiçá, militar,
ao levantar o olhar
e perceber, rente,
o surpreendente domo,
por mais que se tente
não há mesmo como
ser somente voyeur.
Em conquistas quaisquer
ideias surgem,
ideias somem.
Certo é que aqueles homens
que à lua foram com alfas e betas
foram cientistas,
mas voltaram poetas.

27 de junho de 2011

A Onda

De velha já basta eu - é o que diz a mulher que, com um gesto ligeiro, abandona o aparelho na calçada. Já não funciona há algum tempo, o tal rádio antigo, guardado há tanto no quarto inútil onde se conservam as coisas de que já não lembram mais os moradores da casa, mas de que não tiveram coragem pra se desfazer. Hoje, não se saberá por que, a senhora dona da casa resolveu criar coragem e abandonou-o na calçada, em frente ao prédio. Pode-se imaginar que não tem mais valor sentimental, nem prático, já que há aparelhos de rádio muito mais funcionais e modernos, e o conserto de um aparelho antigo como este sairá mais caro que um dos novos, que tão melhores aparentam ser. Alguém haverá de querer este trambolho - pensa ela enquando fecha o portão do prédio atrás de si.
Pois às vezes as senhoras donas de casa têm razão, e dois homens que passam em frente ao recém-referido portão encontram com os olhos o rádio e, com os mesmos olhos a se encontrar, resolvem sem nada dizer que ele pode ser valioso. Levam-no.
Há em determinada esquina um cartaz pintado com tinta preta numa placa de madeira, onde lê-se, com dificuldade, a frase "Compro antigos - brinquedos, rádios, telefones, curiosidades e coleções". A porta na parede, logo abaixo do cartaz, leva a um cômodo minúsculo com as mais variadas espécimes de antiguidade, sendo na maioria os artigos descritos no cartaz. Os homens chamam a pessoa que está lá dentro pelo nome e ela sai. É uma mulher gorda, com uma roupa pastel e cheiro de mofo. Ela se mescla às antiguidades, e por isso os homens não a viram a princípio.
Depois da negociação, o rádio é vendido a vinte reais. É um preço justo para os homens que só tiveram o trabalho de carregá-lo por dois quarteirões e para a mulher, que não o venderá tão facilmente - pois precisa de lucro e não tem muita clientela naquela rua.
Por estas razões, no dia seguinte, ela vai até a feira de antiguidades, no centro da cidade. Entrar na feira é como andar no tempo, pois não só as coisas, mas também as pessoas que ali estão exibidas são de outras épocas , de outras cores, geralmente tendendo ao sépia. Ela chega e vai de encontro a um senhorzinho de óculos, suspensórios e boina xadrez. Ele é tão antigo quanto as coisas que vende, e pode muito bem ter utilizado alguma delas na época em que ainda eram utilizadas.
Depois da negociação, o rádio é vendido a cinquenta reais. É um preço justo para a mulher, que teve o trabalho de negociá-lo duas vezes e trazê-lo até a feira, e para o velho, que precisa de algum lucro, mas não precisou carregar o rádio e nem precisará.
Ao fim da tarde, um rapaz de óculos e mochila se aproxima do rádio. Ele parece gostar muito, se admira com o desenho antigo do aparelho, sente um cheiro que é familiar, cheiro de velhice, cheiro de avô; pensa que consertar um apetrecho destes é coisa relativamente barata, e que seria muito charmoso ouvir música nesse aparelho tão antigo. Pode-se pensar que alguns jovens não conseguem mesmo se adaptar ao tempo, e querem tanto voltar alguns anos que, por isso, se rodeiam de objetos antigos. Seria este um caso.
Depois da negociação, o rádio é vendido a setenta reais. É um preço justo para o velho, que não teve nenhum trabalho, e para o moço, que sabe que antiguidades, por serem raras, são caras.
O rapaz chega em casa com o novo artefato, limpa e leva para a sala. Chama os pais - eles hão de achar interessante, pois devem ter tido contato esse tipo de aparelho algum dia. Assim que põe os olhos no rádio, a mãe imediatamente exclama:
Olha, mas que coincidência! Coloquei ontem mesmo um rádio desses na calçada!

12 de junho de 2011

Lua Cheia

Corre, pula, salta,
vira, sacode a areia
do pé, que só leva a falta
de qualquer sapato ou meia.
Escala, fala, fala,
mas, tão logo se cala,
abre riso de lua cheia,
riso longo que serpenteia
no rosto curto de menina.
Corre, pula, Janaina!

5 de junho de 2011

Doma

Com uma ordem simples, um movimento de mão do menino, ela o obedecia. Atravessava o pequeno riacho, subia rapidamente uma árvore, esticava-se e tentava agarrar uma galinha. Era completamente submissa a ele. Ao mais simples comando diminuia, crescia, rastejava-se, levantava vôo na forma de um pássaro.

Enquanto isso a mãe observava de longe, da janela, o divertido espetáculo que era o filho a brincar com a própria sombra.

28 de maio de 2011

Relatividade I

- Com licença, garçom, mas tem sopa na minha mosca.

- Não era ensopada?

- Não, cozida ao vapor.

- Mil desculpas então, senhor. Vou trocar. Perdoe o inconveniente!

- Tudo bem, tudo bem, esse ainda é o melhor restaurante do brejo. Onde mais um sapo pode comer uma mosca tão saborosa por esse preço?

22 de maio de 2011

Bolo

Olha, mas não vê. Procura, vasculha. Os músculos já lhe doem, razão pela qual se move um pouco, troca a posição das pernas e logo dos braços. Os olhos também já não estão tão bem, e as mãos esfregam as olheiras. Olhando de longe, parece uma escultura, estátua, parada enquanto tudo ao redor se move; situação que dialoga com a dos já referidos olhos, que parecem mover-se sem parar enquanto tudo em volta deles estagna.
O ambiente ao redor cada vez mais se alenta e o movimento pouco a pouco começa a cessar, e o corpo, que mesmo com os olhos vacilantes ainda permanecia parado, move-se, como se quisesse contrariar o entorno, quase brusco: suspende-se todo sobre si, e se solta. Um suspiro. Os pulmões se enchem totalmente de ar e o liberam, mas com o ar parece sair também algo mais.
Levanta-se, olha, mas não vê. Procura, vasculha uma última vez, mas já sem esperança: a pessoa por quem está a esperar não vem.

6 de abril de 2011

Poema com sono

Tento abrir, o olho fecha;
tento abrir, sai um bocejo.
Num lampejo, vejo a mecha
do cabelo, loiro açoite,
e ao vê-lo vem desejo
(não evito, é o ensejo)
de sonhar com ela à noite.
Mas é sonho, é só sonho,
e ao acordar me exponho;
já tardio, me dou ré.
A sonhar, dormindo em pé
fantasio, e antes fosse,
que este verso, sendo doce,
fosse escrito com café.

28 de outubro de 2010

Central Vazia (ou A Solitude)

Correu até a borda da varanda, olhou lá pra baixo, na rua, observou os carros, que, desgovernados por não terem mãos nos seus volantes nem pés nos seus pedais, tinham se chocado entre si e com a paisagem. Olhou para o horizonte, os olhos vasculhando a imensidão procurando por algum movimento que não o das nuvens no alto. Correu escadaria abaixo, procurou pelo porteiro, pelo jornaleiro, mas não encontrou. Esperou um ônibus por um minuto – talvez menos – mas impaciente com o silêncio que, num zumbido ensurdecedor, lhe penetrava os ouvidos, desatou a correr pela rua, em direção ao único lugar que lhe rendia um fio, um filete, de parca esperança. Entrou, ofegante, com ânsia, na Central do Brasil. Ninguém.

Saiu pelo portão, agora já com mais calma, devagar, de cabeça baixa, e olhou para o céu como se se, só então, se conformasse, e até como se gostasse um pouco da idéia, como se fosse uma escolha própria. Era a única pessoa existente na face da Terra.

1 de outubro de 2010

Caixa de Pandora

Contra o chão da calçada o homem se arrastava e se encolhia pra se proteger das pancadas do policial. Um círculo de pessoas se formava em torno do bizarro espetáculo de violência, mas o fardado não se intimidava - na verdade o público lhe fazia aumentar ainda a convicção dos movimentos.
Batia com força, chutava com o bico do coturno o homem que, magro, sujo, de farrapos por veste e nada nos pés, não abria de jeito nenhum a mão. O punho cerrado não cedia, por mais que o policial vociferasse maldizeres e ordenasse que abrisse. A mão, por sua vez, só crispava-se mais e mais em torno da prova do crime que procurava o oficial.
A surra começou a ficar sangrenta quando entrou em cena o cassetete. O bastão subia e descia no ar, e o rosto do mendigo se desfigurava e escurecia a cada descida. Nenhum dedo da mão dele ousava afrouxar. Nenhum observador ou passante ousava ajudar, tampouco.
Eis que, depois de considerável tempo, contra o negro do chão, do sangue e da mão, que, inerte, relaxou, escapou por entre os dedos duros o segredo tão preservado: uma pequena borboleta azul voou sobre o corpo e sobre a multidão, e sumiu contra o anil do céu.

2 de setembro de 2010

Alvoroçer

Cada um está em seu lugar. Os primeiros fregueses da manhã, os olhos ainda apertados, indo para o serviço ou simplesmente adeptos do cedo acordar, a bocejar no balcão; a menina que recebe os pagamentos no caixa, a sorrir simpática e um tantinho sedutora, esperta, mais clientela retorna, mais comissão - comissão é a estratégia de ouro num pequeno negócio; os dois rapazes do balcão, um simpático, sorriso no rosto cansado, o outro carrancudo mas organizado como uma abelha no estoque e cozinha; eu, como sempre, do outro lado da rua, a olhar tudo e fumar um cigarro.
Meu trabalho se resume a pagar os funcionários, não permitir que nada saia do controle e, no mais, observar e fumar. Observo o efeito da manhã nos transeuntes, nos clientes e nos funcionários deste pequeno estabelecimento: a manhã silencia. Enquanto a tarde chama um diálogo produtivo e a noite chama um desmedido, selvagem, a manhã ainda carrega consigo um pouco do solipsismo onírico, um pouco da intimidade do leito, da solidão do sono, da solitude silenciosa da madrugada. Então as pessoas se calam. Falam só o necessário através das suas gargantas roucas. "Café", "puro", "pois não", "bom dia", "cinqüenta centavos", "bom dia", "pingado", "bom dia".
Até os jovens que trabalham pra mim, que a essa altura já são seres da alvorada, silenciam: o sorriso hospitaleiro, a organização minuciosa, o olhar nos olhos, inocente mas com promessa de sensualidade, tudo isso é envolto pelo mais denso silêncio - mais até que o silêncio madrugal, que não se percebe, pois não se precisa tatear, já que tudo está imóvel. Esse silêncio da manhã é um silêncio que se precisa (não) ouvir, precisa-se atravessá-lo. Não há ecos nas primeiras horas da manhã. Cada som é prontamente engolido pelo silêncio tão logo tenha sido entoado.
Observo por um longo tempo a clientela e meus empregados realizarem sua dança sem música, sua cena sem trilha sonora. Dou um trago no cigarro, e ao fazê-lo posso ouvir o fumo estalar, queimar fazendo barulho de destruição, de consumação. Posso ouvir o som da chama, o som do queimar isolados como ilhas no meio do mar de silêncio que afoga a todos os presentes. Então começo a ouvir outra coisa. Está vindo nesta direção, mas muito distante. Vem aumentando, crescendo e encorpando, um tipo de burburinho, um conjunto de sons diferentes muito distante, quase imperceptível a princípio, vindo de todas as direções. Vem como uma infestação, dominando bem devagar as ruas, casas, rios, céu e terra, de todos os lados até cercar a pequena padaria, e, por fim, a toma. Acaba-se o silêncio: os sons de conversas, automóveis, animais, um certo cochicho do mundo passa a se ouvir o tempo todo, em todo lugar. O silêncio denso se esvaiu, e agora as pessoas até se locomovem mais rápido pelo espaço que ele ocupava. As pessoas despem-se do pouco que lhes restava da subjetividade intimista em que estiveram imersas durante a madrugada e revestem-se dos seus arquétipos preferidos, geralmente barulhentos.
Acendo mais um cigarro, mas este queima em silêncio.

10 de agosto de 2010

Oásis

"Vinha caminhando pela rua (...), e a primeira coisa que ele viu foi o largo macacão de lona azul-escuro, com uma alça meio frouxa, quase deslizando pelo ombro e deixando mostrar mais a camiseta branca que o cobria, além dos seios e a barriga, é claro. Embaixo, tênis e um andar patético, de pés imperceptivelmente voltados pra dentro e com passadas preguiçosas, arrastando um muito pouco o pé no chão a cada passada. Os braços compridos e sem vida balançavam mais que o necessário, e numa das balançadas, sem perder o balanço, o braço direito veio até o rosto, e as costas da mão encontraram o nariz esmagando-o, deformando o desenho que as poucas sardas faziam, e liberando assim o som engraçado de uma fungada. Os olhos castanhos, assustadoramente escuros, grandes e bobos, que num primeiro momento tinham pálpebras relaxadas e olhar distraído, apertaram-se muito mais que o necessário durante a fungada, e a boca fina, que já tinha um meio-sorriso só do lado direito, franziu-se toda para este mesmo lado. O gesto foi lindo, uma fungada expressiva, que contraiu todo o rosto dela pra depois deixá-lo voltar, devagar, à expressão despreocupada e idiota que impressionou tanto o observador. Logo depois da fungada ela balançou rapidamente a cabeça pra um lado e para o outro, sacudindo os cabelos da mesma cor dos olhos, meio embaraçados, um tanto cheios, espalhando-se pelo ar sem um formato definido até quase tocar os ombros. Ela era linda. A alça do macacão caiu, enfim."

26 de julho de 2010

Lívida

Branca;
já teu nome te decanta.
Falta até que não faz tanta
coisa assim de uma vez.
Linda, lírio, pele em tez,
e a lingua alinha e outra vez
eu não sei como é que se diz
'delírio' em português.

Tanto!
Teu nome me entrega e eu canto,
mas volto logo pro meu canto
pensando em esquecer de vez..
Linda, lírio, pele em tez,
e a lingua alinha e outra vez
eu não sei como é que se diz
'delírio' em português.

24 de julho de 2010

O minuto de cinco anos

"Abre a porta e sai sem rumo, anda por ruas e estradas esmas e descobre um novo caminho pra chegar até onde nunca havia estado. Conhece novos sons, novos rostos, novos gostos, conhece novos conheceres. Entende que ir e voltar são mais ou menos o mesmo, e que não há de fato um 'lá' nem um 'cá'. Dá. Vai até onde consegue, pelo menos pra descobrir que também não há fim. A esmo, vai. Vai!"

Ao que o outro (ou será o mesmo?) responde: "Ai, espera só um minutinho..."

19 de julho de 2010

Pospotência

E, na última página, uma frase boiava solitária no meio de um plano branco, dando (por tirar) sentido a tudo: "Tudo nesse livro pode estar errado."

30 de abril de 2010

Mergulhador de Aquário

Marina já ao nascer recebeu dos pais o nome que lhe definiria até sua morte. Quando criança, passava a maior parte do seu tempo na praia, sentindo o vento salgado que soprava de longe, do horizonte. Vento que acariciara baleias e sereias, rostos de pescadores e palmeiras de ilhas desconhecidas e trazia pequenas moléculas de tudo isso para ela, que por sua vez as capturava com seus braços abertos. Cresceu, e entrou no mar, ao encontro do que só experimentara até então com a pele: tornou-se mergulhadora profissional.
Não havia medo, não havia receio. Ela era um peixe, ou melhor, uma gaivota curiosa e sem fome, que mergulhava decisiva, não pra devorar criaturas marinhas, mas pra observá-las de muito perto, com os olhos arregalados. O mar era um território conhecido, onde se sentia a vontade e acolhida. Nadava como se fosse, também, feita de água salgada, como se, quando saísse do mar, precisasse colocar uma máscara pra respirar aquele ar tão leve, que deixava seu corpo tão pesado.
Foi contratada por um grande aquário para mergulhar ao tanque das tartarugas e bater fotografias de divulgação; ao descer, desesperou-se. Mergulhar num aquário, apesar de enorme, era muito diferente de mergulhar no mar. Era uma garrafa, uma caixa claustrofóbica, sem saida, escura; seu corpo estava mais pesado e ela desmaiou.
Seria agora hora de um herói entrar na história, alguém rápido, um bom nadador, mergulhador profissional de aquário, surgir por entre a âncora falsa decorativa, no meio das tartarugas-marinhas, ou melhor, das tartarugas-de-aquário, e salvar Marina. Mas não, ninguém veio... Como se sabe, não existe tal coisa, um mergulhador de aquário.

Mergulhador de Aquário (addendum)

18 de abril de 2010

Fãs

Todo galã tem suas groupies. Este tinha também, e tão logo aparecia, elas gritavam a plenos pulmões, exaltando-o. Mas não eram gritos comuns:
- Aaaaaaahhh!! Gordão! Gordão! Gordão!!
E iam a loucura. Ele fazia uma firula e elas se animavam mais, gritando em êxtase.
-Dentuço! Dentuço!!!
No meio dos gritos podia-se até ouvir uma tiete gritando sozinha, mais alto que as outras:
-Seu balofo orelhudo!!
Ou até:
-Adoramos sua bunda obesa!!!

E lá ia ele, contente com a ovação, sabendo-se certamente o elefante mais bonito da savana.

13 de abril de 2010

Olhar (a) fundo

A menina disse, distraida, displicente, daquele jeito sonso que faria qualquer garoto se apaixonar, que gostava de olheiras. Desde esse dia, e por isso, o menino - que era apaixonado por ela - parou definitivamente de dormir. A cada dia ele tomava mais e mais café e remédios pra ficar acordado, e até algumas drogas, quando ficava mais difícil manter-se de pé. Quando suas pálpebras estavam quase cerrando-se e a imagem dela começava a surgir num princípio de sonho bom, ele as abria com toda a força e permanecia acordado. Teria as maiores olheiras que alguém já vira, e ela o amaria.
Ela, ainda assim, não reparou, e depois de cinco dias acordado, o garoto teve um problema fatal por falta de oxigenação no cérebro. Ele, já algumas horas antes de morrer, só balbuciava coisas sem sentido e o nome da menina.
Já no velório, ela olhou fixamente para o rosto castigado pela loucura e vigília forçada do menino e reparou: ele era lindo. Chorou um pouco por nunca ter se permitido conhecê-lo, mas de repente viu num canto o melhor amigo dele, com os olhos muito fundos de tanto chorar.
Apaixonou-se na hora.